Resenha por Renan Apolônio*

O filme Crimes de Família (Crímenes de familia, no original em espanhol) é a mais nova produção cinematográfica argentina, lançada em agosto de 2020, com diretores e atores premiados, um enredo envolvente e intrigante, e disponível em Netflix e no CineAr em meio a uma pandemia global. Não é de se estranhar que esteja alcançando tantos cinéfilos em todo o mundo.

O diretor e roteirista Sebastián Schindel começou a preparar o filme em 2014, quando pediu a alguns advogados amigos seus que lhe enviassem casos julgados de crimes de violência de gênero e feminicídio. Assim foi que, tendo analisado vários desses casos, escolheu dois, sem relação alguma entre si, e os uniu na trama, inserindo-os dentro de um mesmo núcleo familiar.

O grande tema do filme é o feminino. Não escancara o tema do feminismo, mas é inevitável não fazer associações a causas defendidas pelas feministas, ainda que de modo mais realista e não idealista. O filme não levanta nenhuma bandeira, mas deixa ao espectador uma série de problemáticas que vive não apenas a sociedade argentina, mas toda a civilização ocidental.

A maternidade é retratada nas três protagonistas. Os três protagonistas masculinos são o filho mimado de uma família abastada, o pai cansado dos erros do filho e da esposa que o encoberta, e o filho de três anos da empregada doméstica.

Mas o foco está nas três mães da trama. Alicia (interpretada por Cecilia Roth), uma mulher da classe alta de Buenos Aires, é a mãe super protetora que arrisca tudo, até seu casamento, seu dinheiro e seu prestígio social para defender seu filho, mas que sacrifica mesmo esse amor incondicional em nome da justiça. Marcela (Sofía Castiglione), acusa Daniel (Benjamín Amadeo), seu ex-marido e filho de Alicia, de maus tratos, violência física e psicológica, e estupro. Paralelamente ao julgamento desse caso, Gladys (Yanina Ávila), a empregada doméstica semianalfabeta de Alicia, é julgada por “homicídio agravado pelo vínculo”, revelando ao final um segredo que muda os rumos da narrativa e de nosso julgamento acerca dos personagens.

A violência contra a mulher é retratada em várias de suas facetas: desde piadas sobre o corpo da mulher, o divórcio como forma de abandono, a morosidade e ineficiência da proteção judicial às mulheres, chegando a golpes físicos e estupro.

Também pode-se ver vários outros temas juridicamente relevantes para o direito abordados, ainda que superficialmente, na produção portenha, como o acesso substancial à justiça, a corrupção, e o próprio sistema processual argentino (que seria um ótimo tema para estudos de direito comparado), entre outros.

Por condensar tantos temas, por retratar a realidade de grupos sociais interrelacionados, e demonstrando como a violência contra a mulher se desenvolve de formas às vezes sutis e às vezes mais trágicas, o filme já mereceria prêmios e críticas positivas. Somando tudo isso com o peculiar humor melancólico argentino, tem-se uma receita perfeita para o sucesso.

Trailer oficial Netflix disponível no YouTube:

 

 

 

 

*Renan Apolônio, colaborou com nosso site por meio de publicação de conteúdo. Ele é Advogado, formado pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE), aluno de pós-graduação em Direito Constitucional pela Faculdade Legale. Desenvolve pesquisas sobre Direito Constitucional, Liberdade Religiosa, Direito e Literatura e Espanhol Jurídico.

 

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