Afegãos fugindo da violência: porque estamos normalizando cenas como essa?

Imaginem a seguinte cena: pessoas invadindo pistas de decolagem em aeroporto, subindo desesperados – e pendurados – em aviões enquanto outros se amontoam nas aeronaves e se agarram a suas laterais, para tentar fugir de um país em guerra e, consequentemente, da violência.

Parece cena de filme de ficção, não é mesmo? Mas foram essas imagens de caos e desespero que chocaram o mundo dias atrás quando milhares de pessoas tentavam fugir do Afeganistão em razão da retomada do Talibã ao poder. Imagens assistidas por nós, dentro de nossas casas, no conforto dos nossos lares que, muitas vezes após um dia cansativo de trabalho, nos recusamos a “passar pelo tormento” de assistir a notícias ruins e com apenas um clique trocamos de canal e seguimos nossas vidas tranquilamente, como forma de esfregar a triste realidade a qual estamos inseridos: a naturalização da violência.

O Talibã é um grupo islâmico extremista e ultraconservador formado oficialmente após o fim da Guerra Fria, cuja associação é a de disseminação da violência, do terror e a prática do extermínio daqueles que não se curvem à sua crença. A origem do movimento seria em razão de muitos de seus membros terem sido estudantes de madrassas (escolas religiosas) afegãs e paquistanesas onde se prega uma forma extrema do islã sunita, e que eram financiadas com dinheiro saudita [1].

O regime do grupo é radical e se baseia no islamismo em sua forma mais extrema e contrária aos direitos humanos, sobretudo de mulheres e crianças, a exemplo da proibição de meninas de frequentarem a escola a partir de certa idade, uso obrigatório de burca, etc. e, em havendo descumprimento as ordens impostas, seriam punidas, em alguns casos, com pena de morte.

A violência se configura de várias formas e tem um sentido diversificado, amplo, podendo ser de diversas maneiras, física, psíquica, sexual, moral, patrimonial, dentre outras e, segundo o dicionário online de Português, é o “ato de oprimir, de sujeitar alguém a fazer alguma coisa pelo uso da força” ou o “constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, que obriga essa pessoa a fazer o que lhe é imposto: violência física, violência psicológica” [2].

Ao decorrer do tempo e ao longo do período de colonização e construção da sociedade tivemos diversos momentos cuja violência foi utilizada como forma de oprimir povos e (re)organizá-los socialmente, separando os grupos entre os que exercem o poder e, portanto, mandam, daqueles que devem obedecer, cumprir e fazer cumprir as ordens.

E no Brasil não foi diferente. A violência esteve presente ao longo de toda a sua construção sócio-histórica, desde a chegada dos colonizadores as terras indígenas, passando pela escravidão dos negros africanos, ao golpe ditatorial de 1964, até os dias atuais, onde continuamos sob o regime separatista, ainda que de maneira mais velada, daqueles que mandam e dos que obedecem, sob pena das mais diversas violências.

Importante que o leitor tenha em mente que a violência pode acontecer das mais diversas maneiras, não sendo apenas a agressão física que a caracteriza, mas também aquelas condutas que ofendam a integridade e a saúde mental do indivíduo, perpassando pela seara sexual, de domínio sobre o corpo do outro, agressões verbais e etc., características que representam a violência que atingem a vida de milhares de pessoas em todo mundo, gerando graves consequências para as suas vidas.

É violência contra o ser humano a necessidade de pedir esmola, a falta de oportunidade, o não ter um teto digno para morar ou mesmo ter que se arriscar todos os dias em meio a lixões para procurar por restos de comida em tentativa desesperada de não morrer de fome. Também é violência utilizar-se do chavão “em briga de marido e mulher não se mete a colher” no caso daquela vizinha que é espancada pelo esposo todos os dias, pelo simples fato de que fingir não estar vendo é mais cômodo do que bater de frente aquela violência e “se meter” na vida do outro.

E é violência a cena presente todo os dias nas sinaleiras das grandes cidades, onde crianças pedem e imploram por uma moeda para sustentar a família e tentar comprar o mínimo de comida possível para sobreviver, ainda que naquelas condições bárbaras. Tudo isso é uma espécie de violência.

Dito isso, fica aqui o questionamento ao leitor: quando você parou para pensar que tem, diariamente, naturalizado a violência?

Noticiários de todo o mundo nos trouxeram imagens de embrulhar o estômago nos últimos dias o que me fez parar por cinco minutos – longos, diga-se de passagem – para pensar no que tem acontecido nos quatro cantos do mundo, todos os dias e a conclusão que cheguei foi de que nós estamos, cada vez mais, naturalizando e normalizando a violência dos nossos iguais.

Aqueles afegãos fugindo de sua terra natal, correndo desesperados em pistas de aviões, pendurados em aeronaves em movimento, eram, de maneira simbólica, o que tem se tornado o mundo nos últimos tempos. Pessoas sendo violentadas moral, física, psíquica e patrimonialmente por aqueles que, em sua ignorância, se sentem melhores que os outros e, por isso, legitimam a sua crueldade e o seu pseudo “direito” de agredir, ferir, humilhar e violentar os demais e isso tem sido feito continuamente através da religião, da misoginia, da cultura do patriarcado, etc.

Enquanto uns praticam a violência, outros – e aqui me incluo nesse grupo – a legitimam. Seja em razão de sua omissão, de fechar os olhos para aquilo que desagrada e optando por viver em sua bolha, seja em razão de pequenas atitudes que agridem o outro. Não é preciso realizar um grande ato para se encaixar no grupo opressor, basta, tão somente, invisibilizar os que passam fome, os que são agredidos por seus parceiros(as), os que vivem em condições sub-humanas, e aqui poderia listar inúmeras violências cotidianas.

E, naqueles cinco minutos de reflexão, pude enxergar a banalização da violência e por que nós assistimos, indiferentes, ao genocídio do povo negro, a crianças disputando alimentos em lixões, aos socialmente excluídos serem dizimados e desumanizados em prisões, em ações policiais fracassadas, em comunidades humildes, etc.

É sim possível não normalizar a crueldade. Criando discursos opostos, de tolerância, respeito, diálogo, da prática dos direitos humanos, cumprindo e fazendo cumprir os direitos legais de todos, nas mais diversas searas, dos mais diversos grupos étnicos, dos diversos gêneros e povos.

O respeito ao indivíduo é condição fundamental para o desenvolvimento sustentável da sociedade e para o cumprimento dos princípios constitucionais. Por óbvio que as condutas que violam a legislação social, notadamente as atitudes aqui relatadas, constituem macro lesões que afrontam a própria existência do Estado. Ora, a essência da Constituição Federal é a valorização do indivíduo em todas as suas dimensões, a fim de garantir o não retrocesso social, consubstanciando o direito do cidadão frente a ações contrárias às garantias sociais já estipuladas.

Não é somente se chocar cenas vistas nos últimos dias, não é fazer apelos às autoridades do mundo através de posts em redes sociais, mas é, também, deslegitimar todos os tipos de violência, combatendo-os diariamente e ajudando, de maneira objetiva, àqueles que são agredidos todos os dias, seja pela fome, pela destruição de seu povo ou pela violência institucional que separa os seus iguais.

Fica aqui a minha indignação as cenas vistas nos últimos dias e, principalmente, o meu alerta a todos nós que, diariamente, nos mantemos na nossa zona de conforto e fechamos os olhos para cenas de crueldade e de violência que, infelizmente, tem se tornado comum.

Que não naturalizemos a fome, a opressão, o machismo, a misoginia e nenhum outro tipo de violência, qualquer que seja ela, e, sobretudo, que tenhamos sensibilidade para enxergar as suas práticas – ainda que veladas – e combatemos toda e qualquer situação de humilhação, exclusão, desrespeito e crueldade a todos os cidadãos, sejam homens, mulheres, crianças, negros, brancos, índios, homossexuais, heterossexuais, ateus, religiosos, sejam humanos.

 

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REFERÊNCIAS:

[1] Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2021/08/17/entenda-o-que-e-o-taliba-do-afeganistao-e-saiba-quem-esta-na-lideranca-do-grupo-fundamentalista. Acesso em: 23/08/2021.

[2] Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/violencia/. Acesso em: 23/08/2021.

 

Colunista

Advogada atuante nas áreas Trabalhista, Cível e Consumerista.
Graduada em Direito pela Universidade Católica do Salvador - UCSal.
Especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Católica do Salvador - UCSal.
Especialista em Direito Administrativo pela Universidade Cândido Mendes - UCAM.
Sócia no Ricardo Xavier Sociedade de Advogados (Salvador-BA).
Administradora do perfil do Instagram @advocacia.artesanal.
Mentora para a 1ª fase do Exame de Ordem.

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