“Para quem é estranho, é uma vida limitada que se apregoa, mas ela é uma vitória sobre a morte e a loucura que afasta a angustia e o desespero mais cruel.” ( Claude Olievenstein)

Existem pessoas que conseguem capturar a alma de outras pessoas. Claude Olievenstein parece ser uma dessas pessoas. E a alma que ele captura é a do toxicômano.

 “ Existe na relação do toxicômano com os demais uma palavra e um afeto interditos. De todo os sofrimentos, somente o seu é proibido por uma conotação moralizante. Somente a passagem ao ato – recidiva ou suicídio – pode permitir ao sobrevivente uma comunicação rompida, o sinal-sintoma da perseguição que o sujeito sofre. “  

Em  “ O Sofrimento do Sujeito Desintoxicado” Olieve ( como era carinhosamente chamado por “seus toxicômanos”) tenta explicar, pela palavra, toda a complexidade do fenômeno da Dependência.

“O principal obstáculo é o conceito de normalidade, que rejeita o sujeito em seu isolamento.” Diz ele.

A normalidade é o paradigma da psiquiatria e a neurose o da psicanálise. Para a psiquiatria, o oposto da normalidade considerada como padrão adaptativo de comportamento é o do transtorno mental, com seus sinais e sintomas minuciosamente descritos, o que caracterizaria a Síndrome de Dependência de Substâncias.

Para a psicanálise, a ortodoxia de suas três estruturas, a neurose, a psicose e a perversão, não dão conta do que se denomina toxicomania ou drogadicção.

Embora a teoria psicanalítica seja extremamente rica em produção de teses, a necessidade de enquadrar a toxicomania em uma dessas três estruturas é o que faz com que hajam inevitáveis obstáculos teóricos.

Uma das questões fundamentais da Toxicomania, “ a desmesurada intolerância à passagem do tempo” de que fala Olievenstein, não tem sido foco de muitos estudos ou pesquisas pelos especialistas, muito embora seja conteúdo constante e comum nas falas dos Dependentes Químicos.

E talvez tenha sido a monumental capacidade de Escuta analítica que tenha dado a Olievenstein seu grande diferencial.

Ainda estudante de medicina, sua desmedida curiosidade em relação ao “estilo de vida” dos toxicômanos de então, na passagem da década de 60 para a de 70, com Maio de 68 marcando intensamente sua vida, e o seu desprezo pela maneira como o establishment psiquiátrico francês tratava em suas instituições os toxicômanos, o levou a acolher vários deles em sua casa. Com eles, participando de seus modo de vida, vivendo como se, plantou as bases de sua forma original de, primeiro tratar, e depois, teorizar.

Muito embora tenha participado das famosas apresentações de casos de Jaques Lacan, e de alguns de seus Seminários, e tenha dado interpretação própria e original ao estágio do espelho lacaniano, Olievenstein não se tornou seguidor de Lacan. Para ele, a psicanálise estava atenta à especificidade da dependência humana.

Dependência humana. Tal expressão não é ao acaso – nenhuma palavra é ao acaso nas que Olievenstein apõe em seus escritos. A dependência é humana para marcar a diferença em face do enxame das inúmeras tentativas de conceituação com base nas pesquisas feitas com animais que a “produção científica” elabora.

Não há critério que possa servir para definir a “dependência humana” com base no aspecto comportamental e adaptativo dos ratos e macacos que são objeto fetiche da pesquisa contemporânea.

Quanto à definição da OMS para Dependência de Substâncias – existente há época e não muito diferente da atual- diz ele:

“Tudo é dito e nada o é, nesta descrição quase fenomenológica, nem o porquê, nem o como e quando a divisão é mais psíquica do que física e como se diferencia a dependência humana da dependência animal. “

Para marcar a Dependência Humana, e talvez inspirado pelas fórmulas lógico matemáticas de Lacan, Olievenstein inicia seu ensino com uma Equação composta por quatro Variáveis:

1)    A droga existe sem o Toxicômano. O objeto droga, matéria inerte, existe, sempre existiu, em todos os tempos e lugares.

Essa primeira variável colide com o discurso contemporâneo inspirado em sociólogos de renome – que rotulam com o selo de “contemporaneidade”, “pós modernidade” e quejandos os fenômenos sociais de meados do século vinte para cá. Assim, para os que se inspiram nestes autores, haveria uma forma moderna de usar drogas, inserida em uma sociedade Consumista e Perversa que concorreria para a formação do drogado atual.

16Para Olievenstein, é no conteúdo dos delírios dos toxicômanos, na comparação entre o conteúdo dos delírios de 50 anos atrás e os de hoje, por exemplo, é que se pode distinguir o que é arcaico do que é atual, é nesse tempo histórico subjetivo que vai fundar o que se chama modernismo psíquico, o qual nada tem necessariamente a ver com o modernismo social.

Conceitos sociológicos não explicam nada de toxicomania, embora façam muito sucesso, com a serventia de preencher as lacunas das teses universitárias.

Essa variável colide também com o discurso terrorista de certa corrente psiquiátrica, que saca logo do bolso, assim que os números variam, o argumento da epidemia das drogas, a justificar o derrame de Verbas Públicas para a Universidade / Terceiro Setor.

2)    Diante desse objeto, a atitude do homem é variável, conforme o espaço, a ideologia, o lugar e o momento sócio-cultural.

Essa variabilidade de espaços, lugares e momentos é que torna o debate rico e o problema complexo, fundada na pluralidade de idéias e opiniões, de métodos diversos de tratamento e das inúmeras teorias que tentam explicar o que acontece com o homem que usa drogas. Essa complexidade em que a palavra esbarra, e, por ser limitada, corresponde uma das inúmeras definições lacanianas para o Real, aquilo que é inassimilável, indizível, ponto de basta da Razão e da racionalidade, e que ao mesmo tempo não cessa de tentar se escrever.

Nessa variável cabe a interpretação de que há variabilidade social. De fato há, mas essa relação do social com a droga se dá em uma camada, um plano de proximidade mais distante. Ou seja, existe mais semelhança entre um general romano que se vê deserdado por alcoolismo e um executivo atual que se encontra interditado por cocaína do que entre a sociedade romana e a atual. Privilegiar a relação social com a droga em detrimento da relação subjetiva com ela é, no mínimo, caminho para grandes equívocos.

Idealizar uma sociedade mais justa ou vociferar contra a política não resolve o problema teórico nem trata o toxicômano.

A variabilidade social explica, por outro lado, a prevalência de uso em uma sociedade de uma droga específica em detrimento de outra. O crack no Brasil, as meta – anfetaminas nos Estados Unidos, obedecem à lógicas econômicos-sociais específicas. A decisão de liberar, legalizar ou criminalizar produtos também são, em última ratio, decisões ideológicas.

3)    Em um mesmo momento sócio cultural, a atitude dos indivíduos é variável, conforme a vulnerabilidade pessoal ligada à história do sujeito diante da falta.

Aqui Olievenstein oferece uma sutil porém extremamente relevante diferença entre sua Clínica e a da Psiquiatria ortodoxa.

O modo como maneja o conceito de Vulnerabilidade Pessoal. A Psiquiatria o considera fundamental como índice preditivo de risco para desenvolver, a posteriori, Dependência Química, o que faz com que seja fundamental para a área de Prevenção.

Por Vulnerabilidade Pessoal entende-se o conjunto de fatores individuais que predispõem um indivíduo ao uso de drogas. Exemplos clássicos são o indivíduo ter sofrido abuso físico ou sexual, grau de escolaridade, presença ou ausência de liames sociais com a família, escola, a religião, atividades de lazer e esportivas, grau de acesso a Saúde e Educação, e a existência de outros Transtornos Mentais.

A sutileza e a importância de Olievenstein está em que ele vincula, liga, a Vulnerabilidade Pessoal ao que ele denomina “a história do sujeito ligada à falta”. Ou seja, não importa tanto o que acontece com o Sujeito em termos de presença ou ausência de experiências positivas ou negativas, maior ou menor grau de proteção social, e quaisquer outros índices possíveis de serem estipulados, mas a maneira como o indivíduo subjetiva sua história, como ele lida com aquilo que acontece em sua vida, com o que lhe falta, com as frustrações e as dores de viver.

tratamento

 

Uma Leitura apressada poderia levar a interpretação de que ele tão somente confirma a libertação das mães e dos pais de qualquer responsabilidade quanto ao destino de seu filho, ao deslocar a questão não tanto para o que o ambiente e o entorno da criança promovem ou não de devastação no infante (uma espécie de exorcismo ao fantasma da “mãe suficientemente boa” de Winiccott) mas á responsabilidade deste em subjetivar o que lhe aconteceu.

Não parece que seja isto, mas, sim, que não há qualquer responsabilidade definida, e mais, qualquer relação causal que explique o porquê de algumas pessoas responderem de maneira tão específica ( usando drogas) ás frustrações que a vida lhes comete.

4)    Toda falta no ser humano remete a uma outra falta arcaica, e é nisso que se situa a especificidade da dependência humana.

Essa diferença sutil, mas extremamente importante, fica clara quando se interpreta esta quarta e última variável.

O que marca a dependência é esta especificidade, a de usar drogas, para fazer face à uma falta também específica, a originada pela imagem especular constituída e partida no mesmo momento, o espelho quebrado. A droga tampona essa falta e exorciza e anula a falta arcaica, originária, comum a todos os seres humanos.

 

Para Olievenstein, o cerne do tratamento consiste em fazer o sujeito entrar em contato com essa falta, a que lhe constitui e mantém em relação de dependência, a que lhe faz usar a droga, para que, com a continuidade do processo terapêutico, possa o sujeito perceber que essa falta específica está a serviço de impedi-lo de perceber e sentir a falta arcaica. E é com essa última que ele, no final de seus dias, e a cada momento de sua vida sem drogas, vai ter que se haver.

Para tanto, a abstinência é fundamental. Necessário portanto “ o sofrimento do sujeito desintoxicado”.

“ Ele vai dar um novo passo que, se formos honestos, nos interroga muito mais ainda: nós o levamos aonde ele nos levou: até a desintoxicação. Nosso sujeito tenta reintegrar-se á miserável condição humana, a querer se tornar um homem qualquer. É aí que se situa uma trágica ilusão, que começa uma outra aventura, dramaticamente censurada por todos os protagonistas em causa. Esta aventura é a do sofrimento, se reconhecendo no sujeito desintoxicado. Ousa-se dizer, o toxicômano é então o mais nu dos homens, arrastando sua existência sem outro recurso do que a renúncia. Seu corpo e seu psiquismo gritando por socorro em um desespero sem fim. Eles gritam igualmente de fome e de uma lembrança inexorável. “

Sofrimento e renúncia. Passado o período crítico da desintoxicação, abre-se para o toxicômano o risco de ser traído por sua memória. É quando a lembrança do prazer e do inferno convivem lado a lado e a vontade de voltar a tomar o produto pode se manter presente por um tempo que parece sem fim.

“Alternadamente a memória do prazer cede lugar à memória da falta, e vice-versa. Este é o espaço tempo do sujeito desintoxicado; esta expectativa magoada, ferida, esfolada viva. O fim desta expectativa é vivido como o único Nirvana possível. Porém, com esta enorme restrição mental de uma falta irredutível que se torna uma conotação moral do erro – seu erro. No que seu destino corre o risco de tornar-se irredutível ao do homem qualquer.”

 

E se de um lado o que resta é a renúncia – não só à droga, mas à todo o estilo de vida que ele se impunha até então ( o que vai revolucionar sua vida sexual, profissional, social, familiar) –  para que “ como diz o pequenos Hans: ter vontade não é fazer e fazer não é ter vontade.” – de outro lado o cuidado é com “ todas as repetições do estado de dependência estão ái inscritas – a repetição da necessidade e a necessidade de repetição – na tentativa sempre enganosa, mas sempre um pouco satisfatória, de verificação de anular o tempo vivido do sofrimento e de reencontrar o tempo vivido do prazer. Estar no mais baixo para achar o mais alto: o paraíso perdido. Construindo assim seu espaço-tempo em volta da repetição, ele não pode nem organizá-lo em volta de um futuro.”  

A recaída é uma possibilidade constante e concreta, a dependência uma recordação em ação, e o suicídio uma solução para uma impossibilidade de suportar a separação.

“Restabelecer também, pouco a pouco, a função do tempo torna-se uma das tarefas do terapeuta; mas não se deve subestimar a dificuldade porque, ao instalar a ritmicidade de uma maneira arbitrária que não leve em consideração o descomedimento e a intensidade da recordação vivida, corre-se o risco mínimo de uma nova fuga para a frente (a recaída), ou, no máximo, de um suicídio como solução para uma impossibilidade de suportar uma separação, por mínima que ela seja.” 

A dependência é uma alucinação perversa em ação. Cumpre uma função de reserva e de recarga, sem a qual o sujeito encontrar-se-ia completamente nu em sua miséria primeira. Mas é um instrumento ativo que pouco a pouco exaure seus benefícios.

“ Se é a negação de seu estatuto social que o impele a transformar-se, sua identidade mais do que nunca o faz esquartejar-se entre uma lacuna mais presente do que nunca, que tem sua origem no estágio do espelho rachado, a memória do prazer e da fusão e o saber ansioso de que não é mais possível ir mais longe. É a noite ( precedida de um entardecer que é a hora habitual onde se realiza o ritual compulsivo da busca do produto e da relação sado-masoquista com o traficante) que melhor marca este estatuto; a noite do desintoxicado é um pesadelo acordado e um combate vígil, mesmo quando está sob calmantes”

Por outro lado, quanto ao discurso dos Grupos Anônimos, prossegue ele: “ A noite é o exemplo da derrota de todos os mecanismos pseudo-adaptativos que tentam ocupar o lugar e o discurso do sujeito, quando não censurado, é patético, clamando tanto por um desejo de normalidade como pela impossibilidade desta normalidade. “

Ainda assim, os Grupos possuem um caráter instrumental eficaz, e não deveriam ser desprezados a priori. Se existem pessoas que alcançam a abstinência estável e satisfatória prescindindo de frequência ao Grupos anônimos ou da prática dos Doze Passos, outras “se adaptam bem” à eles.

Ainda que o sofrimento possa “conduzi-lo a aceitações masoquistas e alienantes, que substituem uma dependência por outra dependência, principalmente a um personagem carismático que saiba explorar este indizível vergonhoso e culpado do sujeito”, Grupos ou igrejas fazem laço social, o que é importantíssimo para quem precisa refazer os mais variados vínculos, quase todos destruídos pelo processo de isolamento em que vivia o toxicômano.

 

Continuaremos mais sobre esse assunto daqui há quinze dias. Até lá!

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