Dependência Química: O Alcoolismo Masculino

O álcool é uma droga que produz mudanças cerebrais, psicológicas e sociais, apresentando, de maneira abrangente, efeitos negativos perturbadores do equilíbrio e bem estar dos envolvidos diretos e indiretos.
Para Charles Melman[1], “O Alcoolista específico é reconhecível, na falta de anamnese, das queixas do meio que o cerca ou de estigmas, pelo seu discurso.”

Passamos a uma análise sobre o Alcoolismo Masculino na Visão de Charles Melman.

Alcoolismo Masculino na Visão de Charles Melman

Deste discurso, diremos de imediato que ele se isola pela unicidade manifesta do outro a quem se endereça de maneira passional. Esta unicidade é interpretada como dividida entre uma representação feminina destinada à vingança punitiva e uma representação masculina chamada a uma fraternidade ambígua.

Uma dicotomia do mesmo tipo, “sombra e luz”, divide o espaço em um “dentro” familiar, campo de um drama estereotipado, e um “fora” público, lugar privilegiado de regozijos coletivos.
896 Assim como o discurso passional do paranoico ou do erotômano, o discurso do alcoolista se modula por uma submissão particular ao lugar de seu exclusivo endereçamento: o outro enquanto detentor e distribuidor de um gozo cuja totalização seria para ele sempre recusada ou dissimulada.

Aqui se descobre, a nosso ver, a especificidade simples e fascinante do alcoolista: denúncia odiosa do gozo neste limite que ele deve à manutenção mesma da vida; maldição do genital e da parte que ele nos furta postulando a preservação da vida.

O alcoolismo nos interessa por nos lembrar, entre outras coisas, o caráter acidental, e de modo algum necessário, do encontro entre afeto (amor) e o gozo.

Este amor, entretanto, parece que o alcoolista o reservaria ao seu semelhante homossexuado: apelo ao duplo, testemunha fraterna de miséria, à qual são oferecidos com ênfase de gesto, o prazer da troca igualitária, a estima mútua, a fidelidade provada, uma lealdade sem, sombras. Imagem onde cada traço faz relevo e que, entretanto, é sem profundidade, inverso da imago feminina.

Se a exigência da troca igualitária pode conduzir até ao ponto de colocar o amigo fraterno no leito conjugal, este extremo não é indispensável para que, por uma reviravolta súbita que se pode desenrolar sobre um modo episódico, o mesmo se torne rival.

A emergência dessa tensão agressiva confirmaria, se fosse necessário, a natureza especular da imago assim investida: ela nos coloca sobre a via daquilo que funda o ciúme do alcoolista.

Sabemos que o humor do alcoolista varia segundo um ciclo rápido que vai da expansão eufórica e megalomaníaca à depressão suicida, que alimentam culpabilidade e sentimento de indignidade. Esta curva não é necessariamente simultânea à da embriaguez e da abstinência.

Medicamento do supereu, o álcool pode ter, como parece ter todo tóxico, efeitos farmacodinâmicos inversos. Uma tal dicotomia do espírito é homogênea ao maniqueísmo rudimentar que parece organizar o mundo para o alcoolista: assim reencontramo-lo dividindo o espaço em um fora fraterno e cativante e um dentro familiar repulsivo.

Se o fora suporta a expansão narcísica e a participação, até a doação de sangue, como não é raro, ao grupo homossexuado, o dentro é o lugar onde se enlaça o drama: infelicidade de ser pai e também de não o ser. Isto é, de não ser reconhecido como quereria o fantasma: total, absoluto, fora da castração, e como isto seria possível por parte daqueles, mulher e filhos, cuja debilidade ou o sexo recusam antecipadamente o valor do testemunho.

A tolerância notável da mulher é conhecida: ela sabe que ocupa, na economia psíquica de seu marido, o lugar central, de onipotência, fixando-o em uma posição de pedinte pueril, mesmo que ele seja violento e barulhento.

O futuro do filho parece mais comprometido: frequentemente protegido por sua mãe, manteria com ela uma relação simbolicamente incestuosa, esta lhe reservando a parte de favor que ela recusaria ao marido, se acreditarmos na denúncia de rival feliz com a qual, aqui, o pai atormenta seu filho.

Também não é raro que, tomando a sério a inversão de papeis, seja a criança que se faça de guardiã de uma lei desprezada pelo bêbado. A sexualidade paterna toma aqui a máscara dramática do traumatismo e do estupro e sabe-se que a vingança parricida (geralmente inocentada nos júris) não é excepcional.

Notemos, sem humor, que o futuro profissional de tais crianças se orienta frequentemente em direção a condições que tem por encargo efetivo guardar a lei, a partir de um investimento de autoridade que é somente o idêntico negativado da violência geradora; ponto que nos parece ser registrado no dossiê da transmissão da neurose.
A paixão que anima o bebedor por seu outro, por ser dual, exclui a referência a um terceiro suscetível de introduzir ordem e dialética. Uma tal disposição é refratária, por estrutura, à intervenção terceira. Reconhecer, portanto, esta disposição como avatar de uma relação originária ao discurso, depreende a rara saída de tentar, a partir daí, com o alcoolista, o reencontro.

Neste sentido, os grupos de auto-ajuda – AA e NA – podem servir de modelo identitário de relação distinta da que o alcoolista mantinha com seus “amigos de bar”. Mas o fundamental parece ser a escrita dos doze passos como modo de referência a uma instância terceira que faça mediação simbólica às suas relações duais.

A castração pode ser compreendida como a assunção, pelo sujeito, da impossibilidade deste ser completo, pleno, absoluto, todo poderoso.

O alcoolismo é exemplar de uma tentativa de negociar com esses limites, com a castração, justamente por uma relação oral que não é marcada por limite algum. É uma tentativa de fazer valer um gozo outro, ainda que parcializado pela oralidade. Um gozo sem limite, fora da castração, mas ao mesmo tempo parcial pela prevalência de uma pulsão específica, a oral.

Ao revés do alcoolismo, o gozo do toxicômano não é uma tentativa de negociar com a castração, mas acima de tudo sua recusa. Recusa, mas também tentativa de ultrapassagem da parcialidade das pulsões.

Se o alcoolista busca, negociando, o gozo ilimitado, ainda que pela via da parcialidade pulsional, e portanto passível de compreensão e reconhecimento por seus semelhantes, o toxicômano recusa o limite e tenta suplantar a parcialidade.

A diferença entre o alcoolismo e as toxicomanias é bastante simples: o objeto, o objeto do qual se trata, o que é visado nesse gozo infinito, continua sendo o falo (o objeto por excelência das pulsões parciais). E isto dá conta da clínica tão falicizada do bebedor, e isto explica também porque o alcoolismo é uma forma de toxicomania que é bem tolerada socialmente, que é apenas considerada como sendo da ordem da patologia.

Socialmente o alcoolismo é bem tolerado porque o objeto de referência é sempre o mesmo. Existe até uma sorte de cumplicidade social com o bebedor. Aliás, todo mundo entende muito bem que ele tente ir até o fim. E vocês conhecem todo o heroísmo viril com o qual se enfeitam os ritos do alcoolista. Em outras palavras, é alguém que não tem frio na espinha, que não para diante do que faz limite, do que faz barreira; é alguém que está disposto a ir até o fim.

Enquanto que no toxicômano a grande dificuldade é que não é mais o objeto fálico que está em causa.  É justamente nisto que os toxicômanos nos parecem estranhos, exóticos, e que não podem ser socialmente aceitos, mesmo quando se trata de drogas ditas “leves”. Isto não pode funcionar no registro de algo que seria um consenso social.

 

Forte abraço a todos.

 


[1] Charles Melman: Psicanalista e escritor francês considerado um dos principais seguidores do trabalho de Lacan e Freud. É também um dos fundadores da Associação Lacaniana Internacional e autor de diversas obras de referência para a psicanálise.

Pedro Tavares
Pedro Tavares
ARTICULISTA. Colaborou com o MegaJuridico escrevendo artigos sobre o tema na sua antiga coluna "Overdose Jurídica". É advogado militante no Rio de Janeiro, especialista em Consultoria Jurídica em Dependência Química, Prevenção, Tratamento e Políticas Públicas de Álcool e outras Drogas.
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