Um dia, um morador de rua

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As expressões que usamos no dia-a-dia exprimem, além de um pensamento próprio, o contexto social de desvalorização do outrem, assim várias são as denominações que se dão aos indivíduos que vivem nas ruas, sem tetos, sem família, sem emprego.

Mendigo é palavra originária do latim mendum, que significa defeito. Desde a Antiguidade as pessoas que possuíam algum tipo de condição física diferenciada estavam excluídas do trabalho, era rejeitado pela família.

Indigente, por sua vez, origina-se do latim indigeo, que significa necessitado. É a pessoa que vive de caridade, não possui família (ou foi abandonado), não tem emprego, nem moradia.

A Sociologia nos traz outro sentido, o de pessoas descartáveis, refugos humanos, ou seja, rejeitados.

Há alguns dias vivenciei a experiência de presenciar um senhor indigente sofreu queda da própria altura, feriu-se, convulsionou e necessitou de atendimento médico de urgência.

Entrei em contato com o telefone do SAMU – Serviço de Atendimento Médico de Urgência, colocando-me em contato com o Médico de plantão, foi bastante solícito e atencioso.

O que me admirou foram os comentários dos transeuntes que iam de “ah ele está bêbado”, “caiu de bêbado”, “sempre faz isso”, “dá trabalho”, incluindo um profissional da polícia que chegou a me dizer que “é assim mesmo”, “ele não estava convulsionando, era refluxo por causa da bebida”.

E o senhor continuava lá, no chão, como se fosse um objeto contaminado, que não podia ser tocado e cujo nome não podia ser pronunciado. Um ninguém, uma peça descartável.

Fiquei pensando se fosse ele um diplomata, vestido de terno e gravata, não seria socorrido […].

Aguardei a chegada da unidade médica, e, realizando o primeiro diagnóstico, me afirmaram que ele sofreu convulsão, e se encontrava em estado de choque, olhos fixados, assustado.

O pré-conceito realmente corrói nossa sociedade. Acreditamos que bêbados não têm direito a atendimento médico, de cuidados e atenção alheios. Julgamos que o individuo necessitado, na verdade, se colocou naquela situação. Como se alguém escolhesse amargurar a vida sem eira nem beira […].

Pus-me a pensar que o ranço maior que prejudica o desenvolvimento social e pessoal é a falta de solidariedade. A Constituinte de 1.988 foi sábia, ao insculpir no preâmbulo a construção de uma sociedade fraterna, e alicerça-la na solidariedade (art. 3º,   I).

Reclamamos tanto a respeito de grandes direitos sociais que podem em alguns momentos não serem efetivados, como transporte, saneamento, saúde, porém, nos esquecemos do básico: como nos relacionamos.

Como enxergamos o nosso próximo? Qual o respeito que temos pelas adversidades?

Qual o grau de nossa compreensão com as dificuldades alheias?

O desenvolvimento da sociedade perpassa inexoravelmente pela construção de um tecido social sólido (de solidus – solidário).

A base da sociedade democrática é a união, a personificação da pessoa como ser político, o respeito à vida do outro, a não utilização da violência como forma de resolução, apenas em casos extremos.

Mais uma vez vemos a crise da nossa representatividade política que não é senão o reflexo do enfraquecimento das relações sociais, que não mais se lastreiam na conjugação, mas, repelem-se.

O cenário que Zygmunt Bauman descreveu para o futuro não é agradável: excesso de pessoas descartadas e refugadas, migrando entre países na busca pela sobrevivência, sofrimento, desigualdade, pobreza.

Transformar essa ideia de vidas desperdiçadas em realidade depende de nossa inércia, e, de outro lado, para uma sociedade de vida valorizada, também depende exclusivamente de nós. O problema alheio é nosso problema também, porque vivemos em um organismo social, qualquer patologia afeta a todos nós, não apenas aos indigentes.

Mestre em Direito - Sistema Constitucional de Garantia de Direitos (Centro Universitário de Bauru). Especialista LLM em Direito Civil e Processual Civil. Advogado.

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