A beleza salvará o mundo”. Dostoiévski, Fiódor.

Estamos presenciando um momento ímpar da história humana, momento igual não se via há pelo menos 75 anos, desde que o apagar das luzes da 2ª Guerra Mundial aconteceu, após a fumaça das duas bombas nucleares lançadas pelos Estados Unidos em território japonês se dissiparam.

Nesse sentido, o momento de crise global que nos inserimos em razão do avanço desmedido do vírus intitulado Covid-19 (coronavírus), lançou sobre os olhos de um cosmos social especulativo sinal de alerta a respeito do rumo que a economia, os intentos e a volição humana estava trilhando: tudo era especulação no âmbito do mercado, na cabeça dos empreendedores e na agenda dos investidores cujos quais, motivados pelo espírito da época, lançavam grandes montantes de dinheiro em modelos de negócios que jamais lhe renderia lucro verdadeiro. A especulação continuava a ocorrer motivada, exclusivamente, pela expectativa do sistema financeiro em troca de títulos e ações de mercado: uma verdadeira belle époque do século XXI.

Contudo, a literatura econômica já nos ensina como a economia é operacionalizada no curso da história; por exemplo, o austríaco Joseph Schumpeter, nos idos do século XX já demonstrava em sua monumental obra, ser a economia uma composição cíclica de fatores que desaguam na vida social de modo a modificar tudo a sua volta, como uma tsunami que carrega tudo e todos. 

Igualmente, após a tsunami denominada coronavírus passar, nos restará um mundo em destroços. Não apenas pelas vidas perdidas ao redor do mundo, mas também pela vidas que se perderão quando a grave crise econômica atingir as estruturas do que hoje chamamos de globalização. 

Esse novo mundo apresentará um cenário diferente do que se viu até aqui: não haverá mais flutuação no mercado, a tecnologia mostrará suas reais intenções (não se permitirá mais divagar em negócios digitais abstratos). Mas a grande indagação da geração que presenciou os gozos do velho mundo, bem como a sua ruína, se faz na seguinte pergunta: como será o novo mundo que virá?

O mundo que virá colocará na pauta da vez um comportamento real na mesa global, onde os modelos de negócios deverão estar diretamente ligados com dois fatores: a) lucro verdadeiro; b) gestão de risco em consonância a medidas de longo prazo.

Nessa perspectiva o primeiro fator se mensura na comercialização, produção e entrega de produtos/serviços que realmente façam sentido ao mercado, pois este já não será mais flutuante e precisará calçar projetos que se paguem a curto e médio prazo. No que tange ao segundo fator, a gestão de risco de longo prazo será crucial, não apenas para criar um mapa estratégico em razão de conter as incertezas futuras, mas principalmente para deixar os empreendedores com os pés grudados ao chão na hora de arriscar sua operação em projetos mirabolantes: contenção associada com prudência negocial.

Em suma, esse cenário generalista parece, em certa medida, um retrocesso,  contudo o mundo sempre foi trágico (cheio de eventos desastrosos para os negócios que precisam ter em seu bojo o caráter da maleabilidade concreta do produto em prol do lucro), ademais, parece que há 30 anos o mercado e seus discípulos haviam esquecido desse carácter intrínseco à natureza social, portanto é chegada a hora de voltarmos ao mundo real, à negócios reais! 

Afinal, parafraseando o escritor russo, na frase em epígrafe, a coragem dos empresários e trabalhadores em encarar o mundo real e produzir bens reais, salvará o mundo! Feliz 2021!

Colunista

Advogado e Sócio na Lee, Brock, Camargo Advogados. Atua nas áreas de Direito Tributário, Direito Empresarial e Direito Digital. Possui larga experiência em reestruturação empresarial e defesa do contribuinte frente a sistemática fiscal brasileira e internacional. Participa da Associação Nacional dos Profissionais de Privacidade de Dados como Membro Público. Membro do Instituto Brasileiro de Arbitragem Tributária (IBAT). Pesquisador em filosofia, sociologia e politica.

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