O mundo é assim: de um lado, os elefantes e do outro lado, a grama. Como diz o ditado que dá título a este texto, quando os elefantes brigam, a grama, que não tem nada a ver com essa briga, é que acaba apanhando.

Muitos de nós perdemos, nestes últimos meses, pessoas queridas: quer sejam parentes, quer sejam amigos. A pandemia imposta pelo COVID-19 dizimou milhares de vidas. Isso nos tem feito refletir sobre o conceito de vida, de morte, sobre o que temos valorizado ao longo de nossa caminhada.

O filósofo Kong Qiu, também conhecido como Confúcio, 500 anos antes de Cristo já falava que para conhecer os amigos precisamos passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e na desgraça, a qualidade. Hoje, 2020 anos depois de Cristo podemos entender que não só no sucesso e na desgraça conhecemos os amigos, mas também quem nos governa.

Esse texto, de modo algum, tem cunho político-partidário. Apenas queria, à luz da bioética, entender o relacionamento entre nós, grama, e eles (você sabe quem), os elefantes.

Passamos pela desgraça. Na verdade, caberia um gerúndio nesta frase! Em meio ao caos, uma esperança: a vacina. Enquanto nós estamos esperando receber uma dose, (ou melhor, duas) de um elixir da vida que tentará nos impedir de viajar pela barca das almas e ter de ser enterrado com uma moeda na boca, como regia a mitologia grega, vários elefantes estão brigando por poder as custas de vidas.

Aliás, essa pandemia nos fez entender que todos, absolutamente todos, tanto os que tinham moeda ou não, vão cruzar as águas do rio Estige que separa o mundo dos vivos e dos mortos. Não importa quanto dinheiro você tenha, se a roleta-russa do SARS-COV- 2 premiar você, adeus! Um adeus sem direito a despedidas, sem rito de passagem, sem abraços e com muitas lágrimas. Acho até que Caronte (o moço que controla a barca das almas na mitologia grega) está aceitando moedas (como sempre) e lágrimas, por misericórdia daqueles que morreram até sem oxigênio.

De acordo com os princípios bioéticos (beneficência, não maleficência, autonomia e justiça), há que se refletir se as atitudes tomadas no âmbito da ciência (bioética), do direito (biodireito) e da política (biopolítica) em relação a produção, compra e distribuição de vacinas estão sendo feitas de modo ético.

Passamos por um ano onde a beneficência foi violentada, e com ela nós (a grama) também: as vacinas muitas vezes foram vencidas pelas “fake news” que prometiam drogas, já usadas para tratamento de outras doenças, como o elixir que nos salvaria da peste imposta pelo COVID-19. Hidroxicloroquina, ivermectina, entre outras, foram promessas na boca do povo e de muitos governantes que tudo daria certo. Por sua vez, a autonomia de muitos foi questionada: outro princípio bioético! Tomo ou não tomo vacina? Vão ou não me obrigara tomá-la?

Isso me fez lembrar, 1904 e a Revolta da Vacina onde muitos não queriam se vacinar pois soava muito estranho ser inoculado com o líquido de pústulas de vacas doentes. Naquela época, achava-se que quem se vacinasse ficaria com parecido com um boi. Hoje, 117 anos depois, alguns acharam que iríamos virar jacarés!

Se pensarmos que esses preconceitos fazem muitas pessoas, num país inculto e polarizado politicamente, não se vacinarem; ferimos a não maleficência! Impedimos, com essas ideias, a imunização adequada da maioria e a expectativa saudável de sairmos dessa confusão toda!

O princípio da Justiça, com seu conceito de equidade, já fora ferido há muito tempo, uma vez que sem vacina para todos (seja por um motivo ou por outro, que não cabe aqui citar) “nem mais para quem tem menos, nem menos para quem tem mais” teremos.

Por isso tudo, a grama, continuará sendo grama e os elefantes continuarão sendo elefantes e brigando por poder sem entender que o pasto onde pisam, que o solo que firmam seus pés, que o substrato que os fornece firmeza e equilíbrio é a grama! Ah, se a grama soubesse disso também!

Adson Passos

Médico Geriatra com inscrição no CRMSP 142.409. Profissional com experiência em cuidados paliativos e atuação voltada para a prática da bioética nos atendimentos clínicos. Cardiogeriatria, psicogeriatria e doenças degenerativas.

Advogada e Professora. Mestranda em ciências da saúde e nutrição; Pós Graduada em Direito Médico e da Saúde; Pós Graduada em Direito Privado; Coautora de livro e autora de artigos.
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