Concurso público e a jornada do concurseiro II

Caros internautas,

É com certa vergonha que essa filha volta ao lar. Depois de uma recente e descompromissada conversa sobre blogs, a vergonha de não conseguir mais passar por aqui e um pequeno puxão de orelha da chefa, eu volteiiii (e dessa veeez é pra ficaaaar). Agora estou devidamente equipada com mesa, monitor e ainda com o luxo de poder ouvir uma musiquinha enquanto escrevo (a cara riqueza..SQN).

Hoje venho terminar de contar minhas (des)venturas. Paramos na prova do TRTPR. Já a refizemos por aqui em algum lugar do passado. Me recordo do certame ter sido mais tranquilo do que o TRTRJ. A parte geral não estava nada fora do padrão, mas a de direito estava mais fácil que o comum, exceto administrativo, que levou muita gente para o buraco. Digo buraco porque uma questão errada nessa prova representava menos 200 posições. Isso para analista. Para técnico, vi muita gente boa perder as esperanças por 0,2 pontos.

Apesar do resultado, por assim dizer, positivo, continuava muito insatisfeita. Estudei administrativo como se não houvesse amanhã. Foquei nos exercícios de português (matéria essa que vocês não pode NUNCA deixar de estudar. Em breve vocês vão saber o porque disso) e na redação, tudo isso à espera do TRT de Santa Catarina.

O edital saiu e a prova estava marcada para julho (alguns dias antes da Jornada da Juventude no Rio). Pensem comigo: SC, julho e inverno. Não haviam condições externas piores. Mas concurseiro é faca na caveira e NADA (nada mesmo) na carteira. Vamos para SC. Como era um dos poucos lugares do Brasil em que eu não tenho família, me hospedei em um hostel. Foi uma das melhores experiências da minha vida! Apesar do banheiro comunitário e o frio absurdo que estava em Floripa, conheci pessoas iluminadas! Prova de que existem pessoas que, como eu, estavam perseguindo seus objetivos, sem perder a alegria. Para Paty, Fábio e Vanessa, um beijos e muito sucesso! O Fábio, me recordo, era daqui de SP e ficava, ou parecia, bem chateado quando falava que não queria muito ir para SP, nem para o TRT 15, nem para o TRT 2 (cá estamos. Paguei pela minha língua).

Sobre a prova do TRT12, também não pude identificar grandes mudanças da FCC. Apenas português que se apresentou um pouco mais difícil do que o comum. E uma questão que preciiiiso compartilhar com vocês. Primeiro porque recordar é viver. Segundo que a questão é muito absurda:

No tocante à organização da Justiça do Trabalho, considere:

I. No Brasil, atualmente, existem 24 Tribunais Regionais do Trabalho, sendo que o Estado de São Paulo possui dois Tribunais.

II. Em 1946, quando a Justiça do Trabalho foi integrada ao Poder Judiciário, surgiram os Tribunais Regionais do Trabalho, em substituição aos Conselhos Regionais do Trabalho.

III. O Tribunal Superior do Trabalho foi criado pela Constituição Federal de 1964, com sede em Brasília e jurisdição em todo o território Nacional.

Está correto o que se afirma APENAS em
a I.
b II e III.
c I e III.
d I e II.
e II.

Resposta: D. Cê jura que com um edital sem fim, eu vou gravar que ano o TST foi criado???? Foi 1946, galera. Isso mesmo. Você tinha que saber o ano em que o TST foi criado. Quem errou essa questão aê, levanta a mão! o///////

Traumas à parte, fiquei muito próxima da nota de corte nesse concurso. Mas não passei. Se tivesse que colocar o ocorrido em um gráfico, esse momento estaria representando uma leve queda.

Mal acabara a prova de SC, TRTGO se aproximava. Mas eu tive um contratempo que, quem acompanha a coluna já deve saber. Meu papai, o cara que sempre me apoiou nessa empreitada louca, foi diagnosticado com uma fibrose no pulmão. A doença não tem cura e na idade dele, poucas chances de vida. Quando esse diagnóstico saiu, me recordo de ter me mantido como uma rocha para a família, mas chorava rios quando rezava todas as noites. Me desculpem os ateus e agnósticos que me leem, mas a fé me manteve muito firme nesse momento.

Diante desse novo cenário, apesar de achar que já me empenhava ao máximo, passei a estudar com mais um motivo para perseguir minha aprovação: meu pai. Além disso, decidi começar a fazer as provas para técnico judiciário.

Em agosto de 2013 veio a prova de Goiás. Confesso que se passei nessa prova foi por um dos motivos a seguir: estudei como uma louca ou Deus teve pena de mim. Como não consegui passagem direto para Goiânia, peguei um voo para Brasília na sexta de noite e fiquei com alguns tios (aqueles de S2 de BSB). Sábado pela manhã parti para Goiânia de ônibus. Foram algumas 3h de viagem. O interessante era meu ônibus lotado de outros concurseiros. Alguns, mais sérios e focados, outros mais relaxados e animados. Mas todos tínhamos o mesmo objetivo.

Assim como não encontrei passagens, eu não encontrei hotel. Fiquei em um hotel muito, mas muito ruinzinho. Porém o preço era justo. Para um lugar que não tinha cortina de banheiro e paredes com pedaços ainda no reboco, 70 reais estava bom. Meu foco era aquela prova. E dessa vez seriam 9h de prova. Claro que não dormi bem a noite. Além da ansiedade, tive que aturar a bagunça de outros candidatos que não pareciam estar interessados no evento que estava por vir.

“Acordei” às 4h. Tomei um café da manhã fuleiro que havia trazido do RJ (isso mesmo, do RJ), que consistia em toddynho e bisnaguinha com polenguinho (vários inhos). Com medo de não ter táxi para chegar ao local da prova, sai do “hotel” antes das 7 am. Encontrei a Patrícia, aquela de SC, pois iríamos fazer a prova no mesmo local. Orei muito para que tivesse sucesso em alguma das duas provas, pois precisava daquele dinheiro e precisava ajudar o papai. A verdade é que ambas provas foram mais fáceis que o comum, o que levou minha aprovação como técnico judiciário, apesar de ter me afundado na prova fácil de analista. Muitas pessoas boas foram derrotadas pela redação específica que pedia para dissertarmos sobre nulidades.

De volta para o RJ, pelo mesmo modo que fui, um ônibus de noite, chegando em BSB às 00H (nesse dia eu estava tão cansada que não sabia se queria comer, tomar banho ou dormir) e às 7h de segunda já estava embarcada para o RJ. Passei 1 semana podre.

Meu papai começou com algumas febres e tosses. Qualquer sinal de qualquer doença nele sempre foi um risco. No dia em que o resultado e minha aprovação no concurso do TRT18 saíram, meu pai deu o primeiro sinal de que estava com uma pneumonia. Uma semana depois, ele foi internado em quadro grave, entubado e estava com poucas chances de sobreviver. O edital do TRT BA já havia sido lançado e eu iria fazer as duas provas. Em função de uma greve nos bancos (tratamos do assunto na época aqui), a prova foi adiada. Passava quase 8 horas por dia no hospital, das quais só podia ver meu velho por somente 3:30h. O tempo restante era reservado para espera da próxima visita no CTI. Meu ritmo de estudo reduziu drasticamente, mas tinha outras prioridades. No início de novembro o papai teve alta, sem explicações concretas da medicina para ele ter sobrevivido ao episódio. Apesar de ter voltado para casa, o papai passou a depender de oxigênio e de uma estrutura de home care. Ainda assim, ele me dizia para não desistir.

A prova da Bahia foi seguida da prova de Campinas. A primeira apresentou um nível normal para FCC, com exceção de uma outra questão (teve até questão de lei já revogada). Não estava com muitas esperanças na Bahia, pois sabia que minha preparação não havia sido das melhores. Mas passei para técnico novamente. Confesso que não fiz muita festa, apesar de amar o Estado. Ainda estou na torcida para os aprovados, mas eu não tinha na época muita esperança de ser chamada por estar em 422, bem como o tribunal não tinha muita tradição de chamar muitos aprovados.

Quinze dias após a prova da Bahia, fui para Campinas. Animada com a tradição do tribunal em chamar muitas pessoas, projetos de leis que criariam diversas vagas e pelo TRT 15 ser mais próximo do RJ. Novamente sabia que não havia sequer estudado o edital todo, as valia do risco. A experiência foi excelente por conhecer da Dona Leda, irmã de uma amiga da minha mãe (parece distante, mas não é não). Me senti mimada por vó como nunca, já que meus avós morreram muito cedo. Apesar do fracasso generalizado nessa prova que foi da NASA, em TODAS AS MATÉRIAS, eu ainda tinha minhas esperanças voltadas para o TRT 2.

Como disse para vocês, um concurseiro não coleciona muitas vitórias, apesar delas serem mais importantes que nossas derrotas. Até chegar ao TRT 2, a prova e não na aprovação, tive que ter muita força de vontade e determinação. Sempre tive o apoio da família do, na época, meu namorado e meus amigos, que nunca deixaram eu levar qualquer pensamento de desistência à frente. Parte da minha vitória é deles também.

O TRT 2 seria meu divisor de águas. Já estava cansada de estudar, da pressão, da adrenalina e da incerteza. Se eu não passasse iria advogar, vender ioiô ou banana na feira. Era minha última tentativa, pelos motivos acima e pela seca de TRT que se iniciaria em 2014/2015. Novamente me empenhei, perdi dias, aniversários, festas, diversão pelo meu objetivo. No dia 22 de fevereiro cheguei em SP de baixo de uma chuva daquelas. Me recordo de ligar para o meu namorado na época e dizer: são 62 vagas, mas já existem 66 cargos vagos. Você vai ver, só de sacanagem vou passar em 67. Em 23 de fevereiro fiz as duas provas. Perdi o aniversário de uma grande amiga, que antes de eu viajar me disse: você já está faltando meu aniversário, o mínimo que você tem que fazer é passar nessa prova. Passei em ambas, tanto para técnico, quanto para analista. E o melhor, para analista, meu atual cargo, em 67! As palavras tem poder, meus amigos. Achei uma das provas mais difíceis de toda minha vida. Quem puder, refaça, principalmente a parte de português, que estava tão difícil, que por vezes não sabia nem o que marcar.

Quando recebi a notícia da aprovação, que veio por meio de uma amiga, estava com a perna quebrada. Quando vi meu nome no DO, não me lembrava nem que tinha perna. Pulava e gritava pela casa. Meu pai fez questão de ligar para todos os familiares. E tinha um sorriso largo, orgulhoso e emocionado. Naquele momento, naquele sorriso, eu entendi o verdadeiro significado da frase “todo esforço será muito bem recompensado”.

Então, meus amados, essa é minha história. Hoje me sinto dona do meu destino. Claro que existem coisas na nossa vida que não controlamos, movimentos externos à nossa vontade, mas todo resto é feito de decisões, que só nós podemos tomar.

Leitor, eu não sei o porque você procurou esse blog ou esse post, mas se você chegou até o final, sinta-se inspirado. Às vezes as dificuldades e a superação dos outros podem ser um norte, mas com toda certeza são uma prova de que podemos realizar tudo que queremos.

Para aqueles que alcançaram o sonho do cargo público, cuidem dele. Ele pode não ter seu nome, mas enquanto você o ocupar, ele terá sua cara, seu jeito. Lembrem-se que seu serviço é para o público, para coletividade e não somente para si. Para aqueles que ainda estão perseguindo esse sonho, meu conselho não é usar filtro solar, mas insistir e nunca desistir. O ouro pode estar mais perto do que você pensa.

Pessoal, apenas um aviso, nossa coluna vai passar a ser quinzenal e às segundas-feiras, agora de forma definitiva. Espero vê-los em breve!

Até a próxima! o/

Camilla Lindoso
Colaborou com o MegaJuridico escrevendo artigos da área trabalhista, geralmente voltados para concursos do TRT. É bacharel em Direito, aprovada no concurso do TRT de SP, empossada no cargo desde 2015.
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