Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo do século XIX, disseminou a ideia de que o sofrimento possuía um significado importante e amplo no viver dos seres humanos, elevando o valor intrínseco dos seres.

De acordo com a sua dogmática, ninguém é capaz de alcançar o sucesso ou a evolução sem superar dificuldades e neste processo inevitavelmente estará presente o sofrimento.

De modo amplo, o autor e escritor Caruso Samel[1] identifica que o sofrimento pode ser considerado como uma sensação mais abrangente, existencial, complexa e global, enquanto a dor é uma percepção mais ligada aos nossos sentidos físicos e sujeita a uma resposta imediata do nosso sistema nervoso central e periférico.

Apesar dessa diferenciação de ordem objetiva, eles podem reforçar-se um ao outro em certas situações.

Por exemplo, uma sensação ou sofrimento de angústia ou de estresse normalmente acentua a dor física, ocasionando doenças psicossomáticas.

Também, a dor física pode ocasionar reflexos no sofrimento como no caso, por exemplo, de uma pessoa que se defronta diante de uma doença incurável que, por medo de morrer, sentimento universal, intensifica o sofrimento.

No decorrer da vida, os seres estão sujeitos a disfunções que levam ao desequilíbrio orgânico o que acentua a complexidade de suas dores e sofrimentos, não podendo mais os médicos, diante de situações complexas, caminharem até a fronteira do corpo físico, necessitando ultrapassar o limite para alcançar a imensidão espiritual que abarca a dor e o sofrimento de muitos pacientes.

Neste transpor de limites encontramos a Bioética como fonte científica do transbordar de alívios, para além da regra doença, medicamento e cura, para o acolhimento da alma humana com o propósito de repercutir decisivamente na cura do paciente.

O sofrimento requer muito mais entendimento afetivo do que qualquer outra forma de tratamento e a sua  eficiência reside no acolhimento daquele ser em seu sofrimento mais íntimo.

Neste sentido, a bioética quando presente faz emergir a empatia na abordagem do paciente diante do seu mundo e suas complexidades, levando-se sempre em consideração o princípio da beneficência nos tratamentos.

De maneira breve, podemos considerar o princípio da beneficência como a não maleficência, ou seja, maximizar a atenção aos benefícios ao paciente do que trazer-lhe mais malefícios do que já experimenta naquele momento.

No juramento de Hipócrates encontramos os seguintes dizeres que reforçam o princípio da beneficência:

“Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém”

“Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário”

É imperioso estimular uma cultura de que o paciente é o agente detentor da sua própria cura, aproximando-se de forma humanizada para o auxílio na escolha das melhores ferramentas para a construção do seu bem estar, resultando em um processo positivo e satisfatório da desintegração do sofrimento.

Nos dizeres de José Paulo Drummond[2], em senso estrito, cuidado é, na relação terapêutica, o debruçar‑se o médico sobre a angústia do paciente, enxergar mais do que olhar, escutar mais do que ouvir, não somente suas palavras, mas também suas hesitações, seus silêncios; é procurar entender, não apenas o mecanismo nociceptivo, mas o significado daquela dor para o paciente; é saber que o resultado terapêutico não resulta apenas da prescrição medicamentosa, mas de toda uma postura compreensiva e solidária.

É no encontro terapêutico, no espaço relacional, que se reconhece o rosto do outro, e que se vivencia a alteridade, se percebe o próximo e nasce a transcendência, a responsabilidade e a compaixão, constituintes intrínsecos do cuidar.

Em senso lato, cuidado não é somente uma categoria que define o ser humano, mas que também nos permite compreender o universo, pois é tão ancestral quanto o cosmos em evolução, ao constituir a condição prévia que permite o eclodir da inteligência e da amorosidade.

O sofrimento faz parte da vida humana e pode ser tratado não só de forma química através de medicamentos, como também com atenção e acolhimento, com uma medicina mais humanizada e voltada para os princípios da bioética que trazem maior proximidade na relação médico paciente, podendo surtir no tratamento, respostas positivas e curativas para além do esperado, utilizando-se de ferramentas simples e natas da essência do ser humano.

 

[1] SAMEL, Caruso. Artigo Dor e Sofrimento. 07/2017

[2] DRUMMOND, Paulo José. Artigo sobre Bioética, Dor e Sofrimento. Ciência e cultura, vol. 63 nº 2, Abril 2011

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