Tratamento da Dependência Química na visão de Claude Olievenstein – Parte 2

Dando continuidade no assunto abordado no artigo anterior, daremos segmento sobre o Tratamento da Dependência Química na visão de Claude Olievenstein.

“Este sujeito que foge, ao se achar, chegará a aceitar nada mais que do que ele mesmo, exteriormente semelhante a qualquer outro, interiormente portador de um segredo tão pesado? ”

 

 

Tratamento da Dependência Química na visão de Claude Olievenstein

Passado o período de desintoxicação (dependendo do tipo de droga – estimulante, depressora ou alucinógena – e das características individuais) o tratamento propriamente dito se inicia.

“ O que se instala então é um novo estatuto tão específico como o era o do toxicômano: o sujeito forma com seu sofrimento um novo duo, tão indispensável como o era o precedente”

Esta característica de indispensabilidade quanto ao vínculo – aqui com o sofrimento, antes com a droga – reflete uma modalidade especial de relações de objeto, marcada por extrema rigidez quanto aquilo que pode propiciar satisfação ao toxicômano.

“ Do exterior, não se pode nem realmente ver, nem realmente conceptualizar este estatuto, porque seria necessário dar toda a importância ás noções de que já falamos alhures: noções de atmosfera, calor, intensidade e rapidez dos fenômenos psíquicos tais como são agravados e vividos pelo sujeito”

Tais noções, intensidade, calor e rapidez, tem a ver com a pressão psíquica (aquilo que confere o caráter de urgência ao agir do toxicômano) e com os efeitos do produto,   dentro do que se poderia classificar como o de uma estrutura neurótico obsessiva bastante peculiar, tendo em vista a forma de relacionamento do sujeito com o objeto que ocupa um lugar privilegiado em sua vida, a droga, a qual ele defere estatuto de Outro ( é humanizada, passando a possuir atributos somente possíveis a pessoas ou a coletividade : portanto, há “casamento com a droga”, “ a droga não me trai” e “ minha política é usar” e etc.,  )

“ tudo se passa como se o sujeito desintoxicado fosse obrigado a redistribuir suas informações em um clima de guerra civil interior; o sujeito passa seu tempo a procurar o sentido oculto de sua escolha de obediência ás três dimensões da lei: imaginária, simbólica e real, que se apresenta a ele somente como possível, quando ele paga um preço de sofrimento inaudito”  

A guerra civil interior é o conflito originário que estava tamponado pela droga. Retirada essa, o conflito é sentido em toda sua intensidade e extenvisidade – experimentado por ele como ansiedade e/ou angústia brutais, aumento de tensão súbita que vai buscar ser descarregada por qualquer meio substituo à droga – e agravado pelo vivido durante o tempo de uso.

O sofrimento é o preço a ser pago por ele não ter aprendido a manejar a relação entre Princípio do Prazer e Princípio da Realidade (não sabe que este último existe, em grande parte, para servir ao primeiro). Ao afastar o da Realidade, o do Prazer transforma-se em intenso desprazer.

Aprender a distinguir entre interior e exterior, entre palavra e coisa, sujeito e objeto, eu e o outro, fantasia e realidade, sexo e amor, entre os pares de opostos, bem como entre terceiros – pai, mãe e filho por exemplo – é buscar o sentido oculto entre as três dimensões da lei.

Claude Olievenstein

Para escapar do caos interior ocasionado pela falência do modelo da satisfação pela repetição automaton do rito do uso da droga, ele vai tentar procurar algum sentido outro novo, inaugurando um espaço relacional tentando entender o que significa- e quais as vantagens – de passar a obedecer a lei em sua três dimensões: a do imaginário – sua relação com seus semelhantes – a do simbólico – sua relação com o espaço-tempo em que está inserido e as insígnias de sua cultura –  e a do real  – tudo aquilo que não cessa de não se inscrever, fora do Simbólico.

 

Esse retorno para sua casa, herança que ele renegou ao casar com a droga- verdadeiro filho pródigo que gastou seu patrimônio de vida nos sucessivos pactos que fez com a morte – somente se faz possível à conta do sofrimento experimentado ao final de seu tempo de uso. No final, só sobraram a droga, o desprezo de todos e a inquietante sensação de que a morte indigna ou a loucura estavam à sua porta. E essa marca permanece após a retirada da droga.

“ O aleatório do acontecimento que ele sabia manipular com o produto não é mais tão manipulável: na saída do que se chama desintoxicação, é o estágio das interrogações redutoras: por exemplo, a pergunta: irei ou não recomeçar? Ou, ainda: se eu recomeçar tudo o que fiz ou sofri serviu para alguma coisa? Neste estágio, a angústia jaz na incerteza frente ao desejo e a necessidade. O que mudou foi o lugar do voluntarismo psíquico que, de impulsivo, torna-se dominantemente compulsivo, com angústia antes da passagem ao ato, depois alívio, depois culpa ”

As recaídas, vistas como alívio para a pressão da tensão, e as substituições – comer compulsivo, sexo compulsivo e etc. – são comuns nessa fase. E significam deslocamentos da energia investida na droga para objetos outros – corpo próprio ou alheio, alimento e etc. E com a mesma dinâmica de tensão, descarga, alívio e culpa.

“ A cena psíquica é invadida pela culpa, o sujeito perdeu toda a ingenuidade do período em que vivia na lua de mel com o produto, antes de qualquer tentativa de desintoxicação. Ele perdeu muito de ilusão e ganhou muito de não amor por si próprio, tendo ainda maior consciência de sua não identidade. Ele sabe agora que o acaso, seja qual for o jogo de seu imaginário, não se pode situar senão dentro de certos limites. Em uma palavra, ele sabe que não se curará nunca, como se cura de uma doença ”

O jogo de culpa e repetição que somente lhe traz, ao final, mais culpa, pode se prolongar por bastante tempo, ao risco, maior, da recaída e o menor, o de estraçalhar seu amor próprio.

“ Tudo se passa como se todos lhe negassem a menor competência sobre seu estatuto e sua experiência. Ele só tem direito a censura e a comparecer, o que reforça seu sofrimento. Então ele mente para si mesmo, embora estando consciente de que mente. “

“ O verdadeiro terapeuta é aquele que permite essa nova descida ao inferno para fazer algo, do tipo de uma atividade legislativa por consentimento mútuo. Por isso, ele deve também abandonar sua vontade de onipotência terapêutica, mostrar-se nu diante de um tal sofrimento. Essa é a única via de acesso a uma nova lei que não terá jamais racionalidade transparente, deixando um certo fundo glauco, aceitando nisso a coexistência de um sentido e uma insensatez, do estável e do instável, do espelho e de sua rachadura”

Essa nova descida ao inferno acontece sem a droga, pela sua falta mesma, que todos os conflitos suprimidos agora retornam com sua força máxima. A droga, usada como cola ou amálgama, ainda que de má qualidade, obturava as rachaduras que agora aparecem para o sujeito – sem o gesso ruim, a fratura dói demais.

“ Frente a esta enfermidade do duo, terapeuta-sujeito, a tentação é grande, tanto para um como para o outro, de substituir nele o único equivalente que desperta ainda os sentidos: o sado-masoquismo, a obrigação da dor que se transformará em caricatura do prazer. Assim, não haverá mais vazio, pois há novamente a dependência, dependência ainda mais ativa do que com o produto. “

Olievenstein aqui faz uma observação que deveria servir de reflexão no que se refere a Técnica do Confronto – modalidade de abordagem que ainda é ensinada e adota na prática – ainda que minoritária – profissional dos tratadores de dependência química. O confronto apenas reforça a resistência, muito embora faça o terapeuta obter um gozo sádico.

“ Portanto a coisa é clara: é da falta de dependência que sofre o sujeito desintoxicado. É o oposto ao que exige qualquer terapeuta honesto. Trágico desprezo explorado por charlatões que pululam, mas esta fragilidade é autêntica, e é sobre esta autenticidade que se deve e se pode construir uma lei.”

A dependência é uma questão do sujeito e não um atributo do objeto droga. É o sujeito que, desde o início de sua vida, estabelece vínculos de aderência simbióticos com os objetos. Quando encontra a droga, a dependência se fixa, é ligada e superinvestida a este objeto específico. Quando a droga é retirada, o modo dependencial permanece em relação aos demais objetos – coisas e pessoas. É esse modelo de estar dependente que o tratamento de Olievenstein visa. Qualquer tentativa de modificar esse modo específico de relação faz sofrer. Verdadeiramente.

“ O lugar da terapia se desloca. Não se trata de codificar o indizível, trata-se de entrar no campo da opinião. Campo não científico, porque a opinião representa “ aquilo que, no sentido, escapa aos sentidos” e onde se irá mais trabalhar sobre o que escapa a razão e ao método, sendo portanto tanto mediador como limite, e considerando a ordem e a desordem do mundo”.

O método de interpretar o material que aparece na transferência – decodificar o indizível – é deixado de lado em favor de uma interação em que os aspectos volitivos e conscientes sejam privilegiados – entrar no campo da opinião.

É no aqui e agora – e não na atualização inconsciente do passado no presente transferencial – que se estabelece a dinâmica terapêutica, de modo a entrar em contato com aquilo que, nos sentidos, escapa ao sentido – a conflitualidade entre o que ele quer, o que ele pode e o que ele deve.

A opinião não é um outro nome da interpretação lacaniana – a qual joga com o equívoco, dissipa as certezas do sentido em proveito de um realismo inesperado, o da letra. A opinião não contempla o equívoco, é a escolha de uma variável de sentido que “ soe exata”. E como corolário, não produz assombro ou angustia, mas sim conforto.

“Também, somente esta opinião pode levar ao compromisso ( mesmo instável e transitório) com a perversidade que é, em um momento da existência, a única maneira de ser no mundo possível ao toxicômano. De fato, o modo de expressão do toxicômano surpreende, provoca, irrita: tudo remete ao estado do descomedimento, com um discurso louco, pervertido, com uma prática do cotidiano que desafia as melhores vontades, sem que se possa descobrir os intentos, tão espalhados como os pedaços do espelho, donde a desesperança do sujeito.”  

Olievenstein parece ter compreendido a importância de uma escuta que não moralize, julgando, ou que se impressione exageradamente com a faceta perversa do toxicômano – última barreira para fazer face ao desamparo. Como ele mesmo diz: ” sua luta é sem tréguas entre seu desejo consciente do que ele deve fazer e seu desejo inconsciente de se deixar levar por todas as fantasias de um imaginário que tantas vezes ele soube manipular na dimensão do prazer e hoje na dimensão da dor.”

“ Então somente a opinião pode se dirigir para esse duplo aspecto consciente e inconsciente, não recuando diante de todo tipo de contradições e de significações aparentes; porém, não se trata de (e não o poderia) suprimir um sofrimento com um saber.”

“ A arte da terapia consiste aqui em fornecer uma imunização contra a intensidade do afeto doloroso, intensidade que, ela somente, gera o medo quase animal do sujeito, medo que incita o sujeito a fazer medo nos outros para deixar, ele próprio, de ter medo.”

Em “Sobre o Narcisismo: uma introdução”, Freud afirma que:

 

“ Uma pessoa pode amar:

(1)Em conformidade com o tipo narcisista:
(a)O que ela própria é ( isto é, ela mesma)
(b)O que ela própria foi
(c)  O que ela gostaria de ser
(d)Alguém que foi uma vez parte dela mesma
(2)Em conformidade com o tipo anaclítico ( ou de ligação):
(a)A mulher que o alimenta
(b)O homem que a protege”

 

O medo da perda do amor do objeto (daqueles a quem ele ama o rejeitarem), o medo de perder o ideal (de não estar à sua própria e idealizada altura), o medo da crítica e da punição (medo ao superego), o medo de passar necessidade e o medo da falta de segurança; esses são os medos que são experimentados em intensidades fenomenais pelo toxicômano, e base de sua dependência.

 

“ Para poder acertar os problemas assim apresentados no campo do real, simbólico e imaginário, superando a intensidade do medo, renunciando portanto as relações de dependência, o sujeito tem necessidade de partilhar, e não somente compreender. (É isto que devem compreender determinados diretores de centros terapêuticos). Porém, não se trata senão de um estágio, onde graças a partilha pode-se e deve-se transformar o conteúdo fantasmático aterrorizante em um conteúdo simbólico mais aceitável pelo real, permitindo assim ao sujeito enfrentar as pressões insuportáveis de seu inconsciente”

Interessante que o modelo, ou ato de partilha, é o utilizado pelos grupos anônimos de auto ajuda (NA e AA).

Em suas reuniões, os membros do grupo podem, se assim o desejarem, através de seus depoimentos orais (depoimentos ouvidos pelos demais membros), exorcizar o conteúdo fantasmático de seus medos.

Ainda que, pela interpretação literal de seu texto, fique claro que Olievenstein estava se referindo à partilha realizada dentro de seu centro de reabilitação, nada impede seja possível o comparativo com a dinâmica desses grupos de auto – ajuda.

 

Forte abraço a todos ( a terceira parte desse artigo continua na próxima publicação da minha coluna, daqui a quinze dias).

Pedro Tavares
Pedro Tavares
ARTICULISTA. Colaborou com o MegaJuridico escrevendo artigos sobre o tema na sua antiga coluna "Overdose Jurídica". É advogado militante no Rio de Janeiro, especialista em Consultoria Jurídica em Dependência Química, Prevenção, Tratamento e Políticas Públicas de Álcool e outras Drogas.
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