Nas últimas semanas, o mundo virtual das redes sociais, ao menos no âmbito brasileiro, deu uma aula sobre a fantástica capacidade matemática de equacionar o sofrimento e medir o peso da dor, utilizando para tanto duas tragédias: as mortes e destruições decorrentes do rompimento da barragem de Samarco e o episódio terrorista vivido na casa de show Bataclan, na França. Foi-se o tempo que reinava a expressão “o choro é livre”. Agora, ele é bem fiscalizado.

A distinção dos eventos catastróficos, que parece, à primeira vista, de natureza espacial – sendo a primeira uma tragédia nacional e a segunda internacional – ganhou contornos de distinção mais expressivos, como duas facções rivais (pela disputa de qualquer coisa que o leitor queira colocar no centro do embate).

O maniqueísmo brasileiro é algo, aliás, que já se vê a todo instante. Tem-se medo da polícia ou do bandido. Ou se é coxinha ou petralha… os antagonismos são variados. Mas ainda se pode ser mais criativo, mesmo diante de duas desgraças sociais. Recentemente, o grau de polêmica se tornou tão à flor da pele que discussões sobre se você deveria aplicar à sua foto do perfil social o tingimento das cores da bandeira francesa ou uma tela marrom em referência à cor da lama se tornaram razões para discussões envoltas de muito ódio.

Poderíamos terminar nossa conversa aqui atribuindo a razão da polêmica à falta do que fazer. Mas isso seria muito simplista diante dos “textos politizados” dos pseudointelectuais das redes sociais.  A rivalização das ideias que colocou de um lado, os pranteadores da tragédia francesa, e de outro os lamentadores da catástrofe brasileira, possui a infeliz raiz da promoção da intolerância pelo sofrimento alheio.

Porém o que é ainda mais abismal é perceber que diante de dois infortúnios, ainda sobrou tanto espaço para se fiscalizar a conduta do outro e tecer a partir daí comentários desdenhosos se a dor alheia merecia mais ou menos valor, como se fosse mais correto chorar mais por determinada desgraça e menos por outra.

Os fiscalizadores do sofrimento alheio foram implacáveis na apelação emocional. Houve quem fizesse a retrospectiva da miséria social brasileira com o propósito de conclamar os brasileiros pranteadores do episódio francês a só lamentarem pelos infortúnios nacionais. Ufanismo da dor?

Preferi dialogar sobre o caso só alguns dias depois exatamente para mostrar ao caro leitor que os mesmos ufanistas fiscalizadores do choro alheio não se mostram tão diariamente preocupados com a miséria nacional tal como tentaram parecer. Não se veem mais lembranças de fatalidades brasileiras sendo compartilhadas com tanta veemência. Ora, onde estão os que prezaram tanto pela valorização da dor nacional?

A quem lamentou pelo episódio francês, meus aplausos. Demonstrou que mesmo sendo brasileiro e convivente rotineiro da mais variadas misérias, ainda possui capacidade de irresignação com fatos não tão próximos. A capacidade de nos irresignar diante de qualquer violência é o que não devemos perder. Afinal, não se irresignar diante de tamanha brutalidade ou convir de que há certo grau de normalidade na bruteza do terrorismo demonstra uma predisposição “a fazer do comportamento violento uma reação ainda mais ‘natural’ do que estaríamos preparados para admitir” (ARENDT, 1973, p. 134).

E lamentar pelo ocorrido na França não significa de modo algum desprezar a tragédia decorrente de Samarco. Tratando-se de uma catástrofe espacialmente mais próxima, temos, inclusive, o dever de promover maiores esforços de ajuda aos envolvidos sobre cujas perdas lamentamos.

Mas a inquietante indagação que persiste é porque não tolerar um sofrimento de uma tragédia estrangeira. No país da receptividade e da alegria, inventou-se a xenofobia da dor, onde no balanço do sofrimento alheio se exige que o peso da miséria nacional tenha uma medida maior. O pranto do outro agora é motivo de fiscalização, reprimenda caso dirigido a um fato que não nos apetece ou não compartilhamos do sofrimento. A intolerância tornou-se o resultado da pesagem. E como adverte Wiesel, “a intolerância está situada no começo do ódio. Ela assume aparências tão sutis que fica difícil discerni-la e combatê-la. E, no entanto, ‘se não a detivermos, será tarde demais’. Uma vez instalada, gera inevitavelmente o desprezo, o ódio pelo outro; e o ódio, por sua vez, só gera o ódio” (WIESEL, 2000, p. 265).

As raízes do ódio tornam o terreno da liberdade infértil, improdutivo ao direito de sofrer e de lamentar. Estaria assim a sociedade brasileira atual tão recrudescida que a cosmopolização não é mais bem vinda, ainda que seja para compartilhar um gesto de se solidarizar? Talvez em algum lugar na história de nossa sociedade, abortou-se o direito cosmopolita pensado por Kant, necessário à busca da paz, onde “a violação do direito ocorrida num ponto da terra é sentida em todos os outros” (apud BOBBIO, 2004, p. 48).

Com esse pensamento que nasce o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o qual nos lembra de que os cidadãos, “dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”, afinal, numa interpretação harmônica da Carta de direitos, são “todos os membros da família humana” (Preâmbulo).

Preferível acreditar que essa polarização “catástrofe do Brasil X catástrofe da França” que nos tentam enfiar goela abaixo não é muita coisa senão produto de uma militância que nada tem de patriótica, mas propaladora de uma ladainha desfocada e de desprezo à liberdade de opinião. Um movimento que não aceita a diversidade e se esconde em falsas compaixões nacionais com verdadeiros propósitos políticos (quiçá de apontar inimigos eleitoreiros?).

Ou talvez esse articulista esteja mesmo enganado e a medição de tanto ódio seja apenas fruto do desejo simples de odiar. Bem, se for isso, não haverá muito que fazer contra esses odiadores. No contexto das redes sociais, “Haters gonna hate”.

 


EPÍLOGO

Se o ódio se mede, como querem, a melhor resposta é a desmedida do amor. Saindo das linhas doutrinárias, em meio a tanto discurso de ódio, terminemos com uma boa música da banda Cidade Negra, nos versos que nos lembram: “amor que não se pede; amor que não se mede; que não se repete”.

NOTA EXPLICATIVA

“Haters gonna hate” é uma expressão inglesa que é bastante popular na internet. Literalmente, “haters gonna hate” significa “odiadores irão odiar“, porém a palavra “haters” é normalmente traduzida para “invejosos” ou “inimigos”, ou seja, “os invejosos irão odiar” ou “os inimigos irão odiar“.

A expressão “haters gonna hate” surgiu a partir de uma gíria bastante utilizada nos guetos norte-americanos. A frase, no entanto, só se popularizou quando foi usada no refrão de uma música de hip-hop da banda 3LW (acrônimo de “3 Little Women“.

(http://www.significados.com.br/haters/)

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hanna. Da violência. In: Crises da República, São Paulo, Perspectiva, 1973.

BOBBIO, Noberto. A Era dos Direitos. tradução Carlos Nelson Coutinho; apresentação de Celso Lafer. — Nova ed. — Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

WIESEL, Elie. VADE-MECUM por uma luta contra a intolerância. IN A Intolerância. Trad. Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

 

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