Coordenador: Ricardo Calcini.

 

1.1. Introdução
Na data de 5 de fevereiro, comemorou-se os 83 anos de umas das obras mais brilhantes e aclamadas do cinema: o filme Tempos Modernos ! Trata-se de uma obra prima que não só representa um clássico do cinema mudo, mas a expressão mais profunda de quantas dimensões o trabalho pode alcançar. Por isso, em homenagem a essa marcante comemoração, resolvi escrever uma tiragem especial.

Sempre ouvi dizer que aquilo que é bom transcende seu tempo. E, no ponto, o filme Tempos Modernos é a mais pura representação deste raciocínio, pois, ao analisar cada quadrante, observa-se o quão atual sua crítica se torna.

Interessante destacar que a genialidade de tal filme está nas sutilezas contidas em cada cena, as quais, ao serem revistas, trazem ao telespectador desdobramento mais profundo daquilo que aparentemente se mostra. E isso por dizer pela minha própria experiência, uma vez que em cada oportunidade que revejo o filme possuo uma análise diferente.

Poderíamos falar por horas deste filme, relacionando sua crítica entre os universos pessoal e do trabalho, partes quase indivisíveis do ser humano. Mas, no caso, busco atentar para as cenas mais comuns do filme que englobam as temáticas: “maquinização” do homem e a felicidade.

 

1.2. Centralidade no trabalho

Carlitos, estrelado por Chaplin, rompe paradigma do herói belo e corajoso, pois sua construção é baseada em um homem comum. Ainda, seu desejo pela felicidade colide frontalmente com uma dinâmica baseada no trabalho pelo trabalho.

Nesse contexto, de um homem que é valorado por sua produtividade, uma cena logo se destaca em que, após um dia de labor – sob ritmo extenuante – Carlitos passa a reproduzir compulsivamente os movimentos atribuídos à sua função, o que denota a inadequação de um simples operário ante um novo modelo de labor, compreendido, até então, do ofício artesanal passado de pai para filho.

Dessa feita, trazendo aos dias atuais, este mesmo “rito de passagem” encenado por Carlitos não seria um breve ensaio para a chegada das empresas 4.0?
Ainda, nesse raciocínio, em que a máquina “dita” como e quando o trabalho deve ser realizado, é interessante notar uma imagem rápida, porém marcante, em que dado momento, diante o ritmo tão frenético exigido por seu empregador, a máquina suga o personagem para dentro de suas engrenagens, mostrando a desproporção entre a velocidade exigida e a própria estrutura fisiológica do homem/operário.

Reportando aos dias atuais, observe que a máquina, na atualidade, possui o domínio equivalente quanto retratado na cena. Isso quando analisamos a introdução dos notebooks na rotina de trabalho, cuja ideia inicial era promessa por maior liberdade, e, ao final, a mobilidade dos computadores portáteis nos conduziu a uma não interrupção do trabalho, Fazendo um paralelo ao filme, me parece que, tal como Carlitos, estamos sendo tragados para dentro das máquinas.

Esse duelo entre homem e máquina, interpretado por Chaplin, não só trazia uma crítica em torno da perda do sentido do trabalho humano, mas, em geral, uma análise das consequências do que o capitalismo em sua forma mais pura ocasiona na sociedade, qual seja, a aquisição de bens ao mesmo tempo o embrutecimento do ser humano.

1.3. Felicidade

Em meio a esse furor por uma vida com apartamento grande, carro de luxo e um bom emprego, questões nitidamente capitalistas em essência que, pinceladas no filme, extrai-se um traço, quase ancestral, que ainda não foi suprimido por todas essas exigências: o desejo pela felicidade.

Esse “impulso” é encontrado tanto no mais fiel discípulo do capitalismo, quanto no empregado com características do nosso estimado anti-herói. E é justamente essa ânsia inexplicável que provoca em certos rebeldes, tais como Carlitos, a busca por um caminho diferente.

Entretanto, embora o desejo pela mudança seja grande, as delimitações sociais já estão devidamente confeccionadas, conforme fora relatado: carro, apartamento, cargo de alto nível, etc. Assim, este ser humano cheio de inquietações segue ajustando em sua agendada apertada para que caiba todas essas coisas, muitas vezes sem poder raciocinar se de fato as deseja.

Nesse contexto, mais uma vez chamo à luz o personagem Carlitos, cujo indivíduo somente sentia-se realmente feliz quando não inserido em uma sociedade, uma vez que as exigências externas não correspondiam as questões de seu íntimo, as quais se concretizam por meio de um mecanismo transverso ao capital.
Nessa esteira, vemos então que a resenha que define Carlitos como vagabundo, mais uma vez ironiza com nossa industrializada visão de mundo, nos mostrando ao fundo que o personagem conclui que para sobrevivência/felicidade necessita-se de muito pouco.
Observo ainda, que nossa incapacidade de concretizar a tão individual felicidade repousa no fato de sermos tomados por uma enganosa impressão em que somos capazes de gerir o tempo, como se sua natureza fosse domesticável, traço indelével de nossa “religião capitalista selvagem”, que, ao final, nos conduz a servidão, sendo o tempo, nosso senhor.

1.3. Conclusão

Como dito, a busca deste texto não foi esgotar cada cena ou trazer uma visão cinematográfica, mas buscar uma relação do conceito do filme para os dias atuais, mostrando que a batalha travada por Carlitos se mostra tão mesma quanto a que travamos intimamente todos os dias.

Deste ângulo, então me resta a famosa questão: será a vida imitando a arte ou a arte imitando a vida?

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