Eu não tenho dúvida que é oportuno falar de morte no momento pelo qual estamos passando. Não é apenas oportuno, mas urgente. Dentro das faculdades de medicina, apenas de todos os dias ficarmos cara-a-cara com ela, a estudamos muito pouco e falamos pouco do que sentimos frente à mesma. Como um médico se sente ao lidar com a morte? Como ele se sente ao ter que comunicar que um paciente morreu? Enquanto muitos acham isso normal e corriqueiro, eu acho que nunca vou me conformar com a morte e deixar de ter empatia por aqueles que recebem a notícia que sai de minha boca.

Do ponto de vista teológico cristão, é melhor o dia da morte do que o dia do nascimento, segundo escreveu o sábio Salomão no seu livro Eclesiastes. Entendo que seja um dia especial pois, finalmente, a criatura encontra o Criador. E fomos criados, segundo essa tradição, para viver com Ele durante a eternidade. Mas que dor, não? Que dor sentem os que ficam. Que dor sentem os que amam! A dor da perda, da partida, da despedida, a dor do luto. Uma dor que recolhe a gente para dentro de nós mesmos. Como dói sentir dor!

Morrer é normal e natural. Aliás, o que seria da vida se não fosse a morte e vice-versa? Eu quero sim morrer, pois dizem que quem não morre vira vampiro e não deve ser legal essa coisa de viver com o relógio biológico alterado, invertendo o ciclo sono-vigília. No mínimo, dá olheiras na gente! Ninguém vai ficar aqui para sempre, mas para encarar a morte como processo natural ou, pelo menos, o mais natural possível, precisamos entender que o modo como se morre faz toda diferença no processo de aceitação da morte.

E como se morre no Brasil? A resposta é: depende! Depende de um tanto de fatores que tem de ser levados em consideração e um dos mais tradicionais é onde se morre e com que tipo de recurso se morre. Mas no Brasil, no ranking de mortes que foi publicado em 2015 pela revista The Economist, morre-se mal. Estamos morrendo pior que na Uganda. Estamos atrás de nossos irmãos argentinos. Estamos atrás da Mongólia. Segundo essa pesquisa, o melhor lugar para morrer é o Reino Unido. Com uma infraestrutura de saúde e de Cuidados Paliativos invejável, como se diz no ditado, Londres “é linda de morrer”! Lembro de quando fui a Europa estudar Cuidados Paliativos e tive a grata experiência de estudar, ainda que por pouco tempo, no St. Christopher’s Hospice. Que lugar! Num lugar daqueles, com aquelas pessoas, com aquele ideal, a morte fica como menos cara de morte e passa a ter mais cara de vida. Abençoado seja o dia em que nasceu Dame Cicely Saunders, criadora desta instituição de amor!

Estudar a morte, portanto, se faz necessário para que a qualidade de morte melhore. Em épocas de pandemia, onde as pessoas têm morrido por falta de recursos de saúde como oxigênio ou falta de leitos de UTI, vivemos a MISTANÁSIA. Mistanásia é a morte infeliz e miserável, fora e antes de seu tempo como propôs Leonard M. Martin, professor e filósofo. Cabe a este termo ainda o sinônimo de EUTANÁSIA SOCIAL. É um tipo de morte precoce que depende de fatores geográficos, sociais, políticos e econômicos.

Mas se podemos morrer fora de hora, qual é a hora de morrer? É disso que trata o conceito de ORTOTANÁSIA. Ortotanásia é morrer no tempo certo, sem mais, nem menos. É morrer da maneira ideal. Todos deveríamos passar pelas doces mãos da ortotanásia. Mas, infelizmente, isso não é uma regra! Em tempos de tecnologização, o conceito mais visto na medicina, contrário ao que propõe o código de ética médica, é a DISTANÁSIA. Distanásia significa prolongar a morte, através de métodos fúteis de manutenção da vida. Segundo o bioeticista Javier Gafo, distanásia é a deformação do processo de morte, com seu prolongamento exagerado, onde se estabelece uma morte cruel ao doente. Isso tem acontecido todos os dias no mundo todo, depois que aprendemos que podemos deixar nosso paciente viver um pouco mais, através de meios artificiais. Mas isso é bom para quem? Depois da ampla necessidade de leitos de UTI em época de pandemia de COVID-19, muitos começaram a perceber que estávamos mandando para as unidades de terapia intensiva pacientes sem indicação desta modalidade terapêutica. Isso vem sendo questionado já há vários anos pelos Cuidados Paliativos. A distanásia de um paciente pode sim levar à mistanásia de outro, infelizmente.

E o que dizer da EUTANÁSIA? Bem, no nosso país, é crime. Não pode ser praticado pelo médico, nem por outra pessoa. Francis Bacon em 1623 dizia que era o tratamento adequado a doenças incuráveis. Em 1987, pela Declaração de Madrid,  a Associação Mundial de Medicina entendeu que eutanásia é um ato eticamente inadequado. A intenção de realizar eutanásia pode gerar eutanásia ativa (ação) ou, pela omissão, a eutanásia passiva (não realização de ação com indicação terapêutica). Como dito antes, qualquer desses tipos é, no Brasil, crime de homicídio pela constituição federal em seu artigo 5º que trata da inviolabilidade da vida. O artigo 41 do código de ética médica diz que: “é proibido ao médico abreviar a vida do paciente ainda que a pedido deste ou de seu representante legal”.

Mas temos alguma opção para pacientes que não tem perspectiva de cura, através de agravos causados por doenças ameaçadoras de vida? Sim, e a resposta é a KALOTANÁSIA. Kalotanásia é um movimento que tem por objetivo a morte do paciente em cuidados paliativos no local adequado chamado hospice. A precursora deste movimento foi Cicely Saunders, que citei no início deste texto. Ela criou o hospice mais famoso do mundo, referência mundial em Cuidados Paliativos que fica em Londres. No hospice, o cuidado é centrado na pessoa e não na doença, através de ações multidisciplinares para melhorar a qualidade de vida no período que lhe resta.

Desta maneira, estudando a morte, discutindo e propondo meios ideais e adequados para o paciente que caminha para o fim (ou para o começo, a depender da crença) podemos encarar a morte com dor sim, com luto sim, mas de modo mais natural e menos sofrido. Queira Deus que o Brasil melhore sua estatística de qualidade de morte na próxima pesquisa que está em andamento e será concluída em dezembro deste ano. O registro da próxima pesquisa que sai a cada 5 anos está em:

https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT04449497 .

Adson Passos

Médico Geriatra com inscrição no CRMSP 142.409. Profissional com experiência em cuidados paliativos e atuação voltada para a prática da bioética nos atendimentos clínicos. Cardiogeriatria, psicogeriatria e doenças degenerativas.

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