quinta-feira, 23/maio/2024
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Março: mês de comemoração e de reflexão do trabalho da mulher negra nas novas tecnologias

Coordenação: Ana Claudia Martins Pantaleão

Março é um mês repleto de comemorações em prol do dia das mulheres, por todas aquelas que lutaram pelos direitos que hoje são exercidos, principalmente direitos na área do trabalho, da política, da educação. Direitos bem-vindos, mas que ainda precisam de ajustes e muita evolução, em especial na área de igualdades no âmbito do trabalho, com políticas de inclusão de mulheres negras a espaços ainda de predominância masculina e de pessoas brancas.

Um mês marcado por datas importantes: dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) buscando celebrar o engajamento das mulheres na política e os avanços econômicos destas mulheres na reivindicação por igualdade salarial, bem como homenagear e relembrar a mortes das trabalhadoras vítimas da fábrica de roupas Triangle Shirtwaist, em Nova York, nos Estado Unidos, que morreram queimadas pois não podiam sair para as pausas entre turnos.

Ainda em março, precisamente no dia 14 de março de 1914, nascia em Sacramento Carolina Maria de Jesus, mulher, negra, catadora de lixo, poetisa brasileira, autora da obra: Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. Vítima do racismo estrutural enraizado em nossa sociedade vivendo uma vida atravessada pela miséria e pela fome. A narrativa de sua vida diária lhe tirou da favela, mas como ela mesma registrou em sua obra Casa de Alvenaria: “Eu ainda não habituei com este povo da sala de visita. Uma sala que estou procurando um lugar para sentar…”(JESUS. Carolina Maria de, 1914-1977).

A narrativa de Carolina, trabalhadora, escritora, poetisa, evidencia o peso do racismo em relação ao seu trabalho, já que o reconhecimento de seus versos lhe foi negado em vida.

Reflexo dos males do racismo, que a todo instante faz questão de lembrar à pessoa preta, que por maior sucesso que possa alcançar, continua com a pele preta.

O mundo do trabalho tem muito a evoluir, principalmente no que diz respeito aos direitos das mulheres pretas e sua atuação nas novas tecnologias. Muitas jovens talentosas não possuem acesso ao crescimento profissional, faltando-lhes inserção nesse meio ambiente tecnológico, um ambiente ainda branco e machista.

Recentemente um relatório sobre perfil da tecnologia no Brasil, realizado pela PretaLab, apurou que “entre os entrevistados, quase 35% disseram não ter nenhuma pessoa negra em sua equipe. E a maior parte dos participantes da pesquisa (65%) disseram que menos de 20% de suas equipes eram formadas por mulheres.”

Como se verifica, existe um abismo entre a tecnologia e a inserção de mulheres pretas nesses espaços. Existe um apagamento de cor, que fortalece a ideologia de branquitude nos meios de trabalho tecnológicos, criando a necessidade de um debate de inclusão das mulheres negras há estes espaços de desenvolvimento de tecnologia.

Esse racismo que inviabiliza acesso as novas áreas de trabalho, “é antes de tudo, a negação do reconhecimento social em suas múltiplas formas. Ser reconhecido em nossas necessidades básicas e em nossos direitos também é o pressuposto para que possamos reconhecer as mesmas necessidades e os mesmos direitos nos outros. Portanto, o racismo em suas diversas formas impede não apenas o florescimento da vida individual das vítimas do racismo mas também o desenvolvimento de qualquer via coletiva que garanta efetivo respeito a autonomia e a liberdade reciprocas entre os indivíduos e grupos sociais que a compõem.” (SOUZA, 2021).

O racismo se impõe com um certo viés de normalidade nesses novos espaços de trabalho, e parafraseando FANON (1925-1961), cria-se um complexo de dependência, onde o preto (malgaxe) inicia uma busca por tornar-se branco para ter sua humanidade reconhecida, aceitando com normalidade as exclusões que o novo mundo do trabalho lhe impõe, criando assim uma forma onde “…o branco obedece a um complexo de autoridade, a um complexo de chefe, enquanto o malgaxe obedece a um complexo de dependência. Todo mundo fica satisfeito.”

No tocante a conduta discriminatória, excluir mulheres pretas desses locais onde a tecnologia é desenvolvida, causa ainda um apagamento das possibilidades reais de avançarmos em desenvolvimento de inteligência que sejam inclusivas, desenvolvidas pensando na maioria do povo preto, e buscando respostas para suas necessidades.

Quanto avanço é cerceado por falta de desenvolvedores pretos nas mais variadas formas de desenvolvimento de inteligência artificial, por exemplo?

Contudo, o pensamento inclusivo ainda é uma utopia, inclusive quando se pensa nas mulheres pretas na área de tecnologia. Essa exclusão tem um preço muito alto e retarda ainda mais  desenvolvimento igualitário de  nosso país, acarretando violações que transcendem a dignidade humana.

Como nos alertou Carolina Maria de Jesus, “Esta faculdade que já libertou os escravos, precisa libertar os favelados.”

Março, mês da mulher, temos muito que avançar e conquistar.

Sigamos!

 

REFERÊNCIAS:

FANON, Frantz, 1925-1961. Pele negra, máscaras brancas / Frantz Fanon; título original Peau noire, masques blancs; traduzido por Sebastião Nascimento e colaboração de Raquel Camargo; prefácio de Grada Kilomba; posfácio de Deivison Faustino; textos complementares de Francis Jeanson e Paul Gilroy. São Paulo: Ubu Editora, 2020. p.113.

https://mareonline.com.br/pretalab-lanca-relatorio-sobre-perfil-da-tecnologia-no-brasil-por-um-mercado-mais-negro-e-feminino/. Acesso em 27.3.2023.

JESUS. Carolina Maria de, 1914-1977. Casa de Alvenaria, volume 1: Osasco / Carolina Maria de Jesus, 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2021. – (Cadernos de Carolina, 1). p. 94.

SOUZA, Jessé, 1960 – Como o racismo criou o Brasil / Jessé Souza. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2021. p. 131.

Luana da Silva Romani

Advogada, pós-graduada em Direito e Processo do Trabalho. Mestre em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas. Professora de Processo do Trabalho na Univap. Diretora-tesoureira da 36ª subseção da OAB/SP.

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