LGBTQIAPN+: necessária inclusão no mercado de trabalho

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Coordenação: Ana Cláudia  Pantaleão

Certamente você já ouviu falar em comunidade LGBTQIAPN+ e na dificuldade que referido grupo encontra com a inclusão no mercado de trabalho, principalmente, em razão de estarmos insertos em uma cultura, ainda, muito preconceituosa. LGBTQIAPN+ é uma sigla de um movimento político e social de inclusão e respeito às pessoas Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero, Pan/Poli, Não-binárias e mais.

A sociedade já evoluiu sobre o assunto tornando-se mais tolerante e consciente sobre o tema, situação que refletiu no mundo corporativo com a criação de políticas internas de combate ao preconceito e com posicionamento público sobre determinadas situações ou fatos ocasionalmente ocorridos dando visibilidade e respeito aquelas pessoas. Em que pese tal evolução, há ainda muitas barreiras a serem superadas, os quais são oriundas de um cenário histórico de exclusão, que impacta até a atualidade.

O fato é que muito embora as pessoas LGBTQIAPN+ tenham oportunidades de emprego, a maioria delas temem sofrer qualquer constrangimento ou represália no ambiente laboral, seja na fase pré-contratual, contratual ou pós-contratual, não se permitindo agir com naturalidade. Tal situação reflete, principalmente, no seu desempenho ou no comportamento social contribuindo, desta feita, para problemas de saúde.

Conforme pesquisa realizada pelo Center for Talent Innovation no ano de 2016 61% dos entrevistados não assumem sua sexualidade no ambiente laboral permanecendo completamente fechados, bem como 49% evitam ou mentem sobre sua identidade. Em 2019, o LinkedIn apurou que “se por um lado, metade (50%) dos entrevistados LGBT+ disse já ter assumido totalmente a colegas de trabalho sua orientação ou identidade de gênero, por outro, um em cada quatro (25%) nunca contou a ninguém, e o medo de sofrer represália é o motivo admitido por 22% deles”.
Os números não deixam dúvidas de que o mercado voltado à comunidade LGBTQIAPN+ é inseguro, defeituoso e está longe de ser o ideal, contudo, já se nota uma ligeira melhora. Os consumidores e stakeholders possuem influência direta nesta melhora, já que cada dia mais exigem que o empreendimento fortaleça o compromisso com a responsabilidade social.

Acerca do compromisso com a responsabilidade social, é imperioso discorrer, brevemente, sobre a diferença existente entre diversidade e inclusão, posto que tais termos não se confundem. A diversidade está intimamente ligada ao percentil de diferentes pessoas no quadro de funcionários da empresa, incluindo, mas não se restringindo, às outras classes sociais, tais como: negros, mulheres, PCDs etc. A inclusão, por sua vez, é a prática de um tratamento igual entre todos os grupos ali constituídos, concedendo os mesmos direitos, benefício e propiciando as mesmas oportunidades de crescimento e desenvolvimento na carreira profissional.

São as políticas internas que preveem as diretrizes para a diversidade e inclusão, além de contribuírem para o enriquecimento cultural para empresa e estimularem relações de respeito mútuo e valorização das diferenças. As empresas que promovem tal cultura possuem mais chances de serem vistas pelos consumidores e stakeholders, bem como têm melhores resultados no que concerne à performance diminuindo conflitos que poderiam atrapalhar o trabalho e agregando diversas outras experiências com visões plurais de mundo.

Pesquisas apontam que os empreendimentos que se comprometem com a responsabilidade social possuem pelo menos 30% a mais de chance de ser mais lucrativa daquele que não aposta em tal cenário.

Em vista disso, é indene que o recrutamento do grupo LGBTQIAPN+ aos quadros de funcionários ou prestadores de serviços da empresa só traz benefícios seja sob o viés profissional, seja sob o viés social incentivando, cada vez mais, o respeito e valorização do indivíduo seja ele de qualquer raça, credo ou opção sexual.

Com base no Índice de Sustentabilidade Empresarial de 2021 a Forbes reconheceu, ao menos, 5 empresas que compõem o Ibovespa e apoiam a LGBTQIAPN+, sendo:

TIM: oferece programas que promovem a capacitação, contratação e o bem-estar dos colaboradores autodeclarados LGBTQIA+ oportunizando, inclusive, treinamento exclusivo para as pessoas trans. Ainda, a empresa, oferece suporte psicológico e assistência jurídica para situações envolvendo o funcionário e a LGBTfobia, bem como licenças, folgas remuneradas aos funcionários em transição de gênero e, ainda, rodas de conversas com grupos envolvendo mais de 100 LGBTQIAPN+.
Cielo: oferece vagas exclusivas para pessoas trans e tem avançado na adoção de ações afirmativas e na criação de cultura organizacional antiLGBTfóbica.
Natura & Co: Entre as iniciativas estão oportunidades de emprego, grupos de afinidade e suporte aos colaboradores LGBTQIA+, prometendo recrutar, ao menos, 30% do seu time com profissionais de diversos grupos, incluindo perfis de diversidade sexual e identidade de gênero. Ainda, a empresa promove, anualmente, uma semana da diversidade, promovendo o diálogo, além de terem parceria com a Casa 1, centro de acolhimento para jovens LGBTQIA+ que foram expulsos de casal. Através de cursos de maquiagem, a marca propôs a capacitação dos moradores trans do centro de apoio. A companhia oferece grupos de apoio, benefícios estendidos para casais de qualquer orientação sexual e licença-maternidade para todos os colaboradores com filhos, independentemente da identidade de gênero.
Suzano: reúne colaboradores pertencentes à comunidade LGBT e tem como objetivo promover a diversidade, contando com o patrocínio de diretores executivos e funcionais, além de cerca de 100 embaixadores e aliados. Além disso, até 2025 a empresa tem como meta atingir aprovação de 100% dos funcionários no que diz respeito ao ambiente de trabalho inclusivo para o público LGBT – atualmente este índice está em 92,4%. A Suzano também é signatária da Carta de Adesão ao Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, na qual se comprometeu a ampliar as ações de comunicação e engajamento tanto para o público interno quanto para o externo.
B3: a bolsa de valores oficial do Brasil, também, é apoiadora da causa e possui um Núcleo de Diversidade, que é formado por 200 funcionários de todos os cargos e que discutem as pautas relacionadas a gênero, raça e etnia, pessoas com deficiência, LGBT+ e gerações. A B3, aliada a um movimento internacional, promove um toque de campainha que tem o objetivo de conscientizar a sociedade sobre a equidade de gênero e atua com processos seletivos às cegas objetivando mitigar eventual situação que possa impactar no processo.

O caminho a ser trilhado tanto pela sociedade quanto pelas empresas acerca da conscientização da igualdade entre gêneros ainda está longe de ter fim, mas vislumbra-se um crescimento e interesse na inclusão do grupo LGBTQIAPN+, afinal de contas, as pessoas devem ser, naturalmente respeitadas e valorizadas, além de serem recrutadas por suas competências técnicas e/ou comportamentais, independentemente, de sua orientação sexual ou de sua identidade de gênero.

 


Referências

As definições de cada classe estão disponíveis no site do orientando.gov através do seguinte link: https://orientando.org/o-que-significa-lgbtqiap/ Acesso em 28/7/2022.

Pesquisa disponível no seguinte endereço: https://coqual.org/wp-content/uploads/2021/04/Out-In-The-World-Press-Release-Updated.pdf Acesso em 28/7/2022.

Pesquisa disponível no seguinte endereço: https://business.linkedin.com/content/dam/me/business/pt-br/talent-solutions-lodestone/body/pdf/ProudAtWork_eBook_VF_LinkedIn.pdf Acesso em 28/7/2022.

Estudo divulgado no seguinte endereço: https://www.mckinsey.com/br/our-insights/diversity-matters-america-latina Acesso em 28/7/2022.

Matéria disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2021/06/dia-do-orgulho-lgbtqia-5-empresas-que-apoiam-a-causa/ Acesso em 28/7/2022.

Júlia Tiburcio

Advogada especialista em Direito Material e Processual do Trabalho pela PUC-SP e em Direito Processual Civil pelo Mackenzie. Mestranda em compliance pela Ambra University Flórida.

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