1811 Eastlake um jeito diferente de tratar a Dependência Química

1811 Eastlake é o endereço de um prédio de 75 apartamentos em Seattle, Estado de Washington, nos Estados Unidos.

As 75 unidades compõem-se de apartamentos individuais de sala e quarto, banheiro e a tradicional cozinha americana ocupando um pedaço da sala.
Não falta mobiliário nem eletrodomésticos padrão para imóveis urbanos.

Seus ocupantes, 75 pessoas entre homens e mulheres, são “cronic homeless alcoholic people” – pessoas com dois tipos de características “crônicas”: Sem Teto e Alcoólatras.

Pessoas com, no mínimo, essas duas “cronicidades”, já que também são portadoras de outro Transtorno Mental, em regra: a Esquizofrenia (embora essa não se constitua requisito necessário para ingressar no Programa de 1811 Eastlake).

Apesar de ser um Programa de “housing”  – habitação – através da oferta de “ shelters” – abrigos – criado por uma organização do Terceiro Setor – a DESC  – Downtown Emergency Service Center, que viabiliza seus serviços através dos mecanismos jurídicos americanos de deduções fiscais que tornam vantajosas as Doações feitas pela iniciativa privada a programas desse tipo, seus moradores, quase todos aposentados precocemente por doença mental ou de qualquer outro modo beneficiados com algum tipo de ajuda financeira do Governo Federal americano, pagam a quantia de U$ 150,00 – cento e cinquenta dólares americanos – por mês a título de Aluguel.

 

1811 EASTLAKE PREDIO

Em contra partida ao preço pago, os moradores passam a desfrutar de sua bem montada unidade imobiliária, a qual garante conforto, privacidade e segurança.

Dispõem também de toda a Rede de Saúde e Assistência Social americana em termos de Prevenção geral e, se assim o desejarem, Reinserção Social.

 

Os moradores da 1811 Eastlake podem usar seu tempo da maneira que melhor lhes aprouver, não há qualquer condição atrelada para a manutenção do vínculo entre ele (o morador) e a DESC (gestora do Condomínio 1811 Eastlake). Nem mesmo a obrigação de se submeter a qualquer Tratamento para a Dependência Química e a imposição de Abstinência, como é comum em outros Programas desse tipo.

 

E, sendo assim, os moradores de 1811 Eastlake usam seu tempo para fazer a mesma coisa que fizeram na maior parte do tempo de suas vidas: beber.

Sim, beber bastante, não há qualquer impedimento quanto á isso. Bebem, quer tenham ou não tomado seus remédios para tratar de eventual Comorbidade ao Alcoolismo (como dito, a Esquizofrenia é a de maior prevalência).

Bebem durante o dia ou à noite, sozinhos ou em grupo, desde que seja dentro do prédio, qualquer bebida ou quantidade é garantida pela própria dispensa que existe no térreo do edifício.
1811_E Ainda assim, no conjunto, a cada ano desde 2000, quando as estatísticas começaram a ser produzidas, valores da ordem de quatro milhões de dólares a cada ano deixam de ser gastos com prisões e Internações Psiquiátricas de seus moradores.

Até aqui, a narrativa é no sentido do êxito de mais um Programa de Redução de Danos americano, e só.

E, até aqui, esse só já é muito, quando se analisa o cenário brasileiro e se percebe o quanto ainda temos de caminhar para que algo desse tipo seja por aqui produzido.

 

No entanto, algo de novo, verdadeiramente novo, e portanto inesperado, começou a acontecer em 1811 Eastlake.

Os Administradores do Programa começaram a notar que, cada vez mais “crônicos Alcoólatras sem teto” começaram a diminuir, progressivamente, o número de doses de bebida ingerida por dia.

Quando esses moradores pioneiros na diminuição das doses entraram em Abstinência total de Álcool, os Administradores resolveram chamar os Pesquisadores e os Cientistas.

E esses efetivamente constataram inúmeros casos, ao longo dos anos, de moradores que não só pararam de beber, mas também passaram a desejar e realizar Reinserção Social, reconstruindo suas vidas pessoais, familiares e sociais.

 

1811_EsOs números encontrados nas Pesquisas variam de acordo com vários vetores, mas todas elas constataram o mesmo fenômeno: a tendência constante para buscar, independente de alcançar e manter, a Abstinência.

E isso é um efeito totalmente inesperado do Programa, o qual, apesar de ser inovador em alguns aspectos, não têm a Abstinência como objetivo, como ideal a ser atingido.

É bem verdade que as Pesquisas não indicam que os que atingem a Abstinência seja a maioria, mas isso não invalida o fenômeno, somente o torna mais interessante. Os números detectados não autorizam seja tratada a questão como mero desvio padrão.

 

O que pode estar acontecendo, quais são as lições que podem ser tiradas de tal fenômeno?

Será que para usuários de outras drogas o fenômeno pode se repetir? Quais serão as drogas que facilitam tal afastamento progressivo delas e quais as que não?  Haverão? Ou será que não é pelo produto químico em si que deve ser procurada uma resposta?

Será que a resposta se encontra nos atributos específicos do Alcoolismo? Ou em características específicas de seus Portadores? Ou, talvez, uma forma especial de conduta técnica da Equipe de Eastlake é o fator que induz a Abstinência?

Não há respostas, ainda. Mas o foco na Reinserção Social – para quem não tem um lar, ter um teto é muito –é provavelmente parte importante da explicação.

A falta de qualquer contrapartida em termos de Tratamento voltado para Abstinência e, concomitantemente, o atendimento da demanda primeira do Alcoólatra, beber, fazem com que seus moradores prefiram permanecer em 1811 Eastlake à ficar pelas ruas. Nisso há uma experiência original de satisfação. Da mesma forma quando se atende ás demandas por um teto, segurança e privacidade se garante a possibilidade de outra experiência de satisfação.

Com essas duas necessidades satisfeitas, o que mais pode querer o sujeito? E é essa a questão. Quando lhe faltava o teto e lhe faltava a bebida, presentes estavam necessidades que causavam seus desejos, se proteger das intempéries de quem mora na rua e a busca pela próxima dose.

Satisfeitas essas necessidades, o que lhe falta? E ai ele percebe que outras coisas lhe faltam, e portanto, outros desejos se constituem, se articulam.

No caso específico da bebida, sua presença constante e o seu uso intenso podem levar a um estado de saturação desse modo de satisfação, saturação vivida como intoxicação física e mental, que faz com que sua falta seja reclamada.

É no jogo entre ausência e presença do produto que ele assume todo o valor para o Alcoólatra. Se constantemente presente, disponível a todo tempo, é bem possível que em algum momento se abra o furo do vazio e da falta de sentido.

Talvez seja pela satisfação exorbitante de suas demandas mais intensas que o sujeito, em determinado momento, pode vir a perceber que a via do desejo é a vida daquilo que lhe falta, e que, por lhe faltar tanto em tantos campos de sua vida, passa ele a desejar outras coisas, já que as primeiras ( beber e ter um teto para morar) já estão satisfeitas, e portanto podem ser exauridas.  Nesse momento beber deixa não só de ser importante como não beber passa a ser considerado vital para que ele atinja seus novos objetos de desejo. A falta e o vazio, que durante tantos anos o assombraram, passam a ser companheiras de caminhada pela vida.

Isso parece um giro lógico radical em termos do que é um Tratamento para Dependência Química.

Os programas priorizam, de plano, a priori, a Privação do sujeito no que se refere a sua vontade: é através da renúncia à sua vontade que algo de novo pode acontecer na sua vida.

 

Em 1811 Eastlake parece não haver qualquer tentativa de controle do desejo alheio.   Ao revés, a satisfação dos desejos parece ser a condição pela qual, ao tempo de cada uma das pessoas, uma vez plenamente satisfeitos, possam ser relativamente arrefecidos, ou até exauridos, e possam, assim, propiciar a emergência de desejos outros, outras faltas que o sujeito percebe nele haver e que causam outros desejos.

Seu cotidiano deixa de ser a eterna repetição da busca constante pela próximo gole de álcool.

Talvez o arranjo muito peculiar de 1811 Eastlake tenha permitido uma pequena abertura no caminho do desejo de seus moradores, pela indigestão causada pelo excesso de álcool, excesso que os leva a entrar em estado de falta, querer não mais do mesmo, mas outra coisa.

 

Isso não quer dizer, é bom deixar claro, advogar por um Tratamento de Alcoolismo que estimule seus pacientes a beber até cair.

Mas sim que talvez deva ser considerada uma abordagem que dê mais ênfase naquilo que falta ao sujeito (e falta-lhe tanto – no caso dos moradores de Eastlake, para começar, o teto, privacidade e segurança) do que naquilo em que nele abunda (o Álcool).

Olhar para o que lhe falta, evidenciar essa falta e trabalhar no sentido de lhe faltar um pouco menos, talvez uma boa definição de Reinserção Social, talvez uma via de acesso para seu desejo.

 

Forte abraço a todos.

Pedro Tavares
Pedro Tavares
ARTICULISTA. Colaborou com o MegaJuridico escrevendo artigos sobre o tema na sua antiga coluna "Overdose Jurídica". É advogado militante no Rio de Janeiro, especialista em Consultoria Jurídica em Dependência Química, Prevenção, Tratamento e Políticas Públicas de Álcool e outras Drogas.
[fbcomments]

Deixe uma resposta